o amor no se compra
Barbara Cartland

Este livro foi informatizado por Amrico Azevedo e Deolinda Fernandes. Caso
esteja interessado em obter mais obras deste gnero, contacte com Amrico
Azevedo - Rua Manuel Ferreira Pinto, 530-4470-077 Gueifes Maia - Telef.:
229607039.

O AMOR NO SE COMPRA
Barbara Cartland
Ttulo Original: Love and the Clams

Resumo da Anticapa do Livro:

Em meio ao dio de suas famlias dois jovens lutam pelo direito de amar.
Esccia, 1745. - como chefe de cl, o duque de Barenlock precisava se casar
para manter sua linhagem. 
Porm, acalentava o desejo secreto de s se casar por amor. Foi quando
conheceu lady Sheinna. Ela queria escapar de um noivado arranjado. Cmplices,
desafiaram a inimizade ancestral que havia entre suas famlias, anunciando que
casariam. Porm, no sabiam que estavam se envolvendo numa batalha de final
imprevisvel.

Captulo 1

O castelo Barenlock era uma das maiores manses do norte da Esccia. Fora
construdo em 1400 e o chefe do cl MacBaren sempre vivera ali.
O duque possua milhares de hectares de terras no condado.
O castelo era, indubitavelmente, uma das mais belas construes da Esccia.
A nica dificuldade consistia em assegurar um herdeiro para o condado, um dos
mais antigos da regio.
Desde muito jovem, o duque sofrera a presso da me e dos parentes, que lhe
imploravam, quase de joelhos, para se casar. Ele viajava muito e passava boa
parte do tempo em Londres.
Era alto, belo e muito inteligente, e inmeras mes ambiciosas lhe
apresentavam as filhas.
Entretanto, por alguma razo desconhecida para sua famlia, ele sempre
retornava sozinho de Londres, solteiro e, aparentemente, com o corao
intocado.
- Voc precisa compreender - a me lhe dissera inmeras vezes - que, sendo o
chefe da famlia e do cl,  seu dever casar e ter um herdeiro, alis,
diversos filhos se possvel.
O duque ouvira esse pedido com tanta frequncia que conhecia cada palavra de
cor.
- Voc precisa transmitir as tradies que respeitamos h tanto tempo.
O duque ouvia a me, pois a amava. E ela o adorava. Ouvira sempre a mesma
splica. Ainda assim, sua determinao aumentava cada vez mais.
S se casaria quando amasse algum e sentisse a certeza de que seria feliz.
Certamente havia mulheres em sua vida, e em grande nmero.
Seus relacionamentos eram bem conhecidos em Londres e muito comentados entre
os escoceses.
Na ltima viagem, da qual acabara de chegar, seu nome fora ligado ao de uma
das mais belas mulheres de Mayfair.
Tratava-se de uma duquesa anglo-francesa. Muito bela, o marido fechava os
olhos para seus casos.
Graas a tal atitude, o duque passa dois meses muito agradveis com a bela
duquesa.
Sua beleza deslumbrante o hipnotizava e excitava. Ela conseguia fazer-lhe
acreditar ser o nico homem em sua vida.
De volta  Esccia, o duque ouvira mais uma vez os pedidos da famlia para que
se casasse.
- como os MacBaren sobreviveriam sem um chefe? - perguntou a duquesa.
- Sobreviveram sob outro chefe antes de eu nascer - ele respondera  me - e
imagino que sobrevivero aps minha morte.
- No entendo como pode falar deste modo - ela retorquira. - Sabe
perfeitamente bem o quanto nosso nome significa na Esccia e se voc tivesse
uma esposa rica poderamos efectuar todas as reformas que h tanto tempo
precisamos fazer no castelo.
O duque no a interrompeu, embora seu semblante exprimisse desagrado.
- E, naturalmente - ela prosseguiu -, voc poderia construir o museu para o
qual contribuiu tanto e at torn-lo o mais importante do pas.
O duque reconhecia a verdade das palavras. 
Por infortnio, quando os vikings chegaram na Esccia, um dos locais de mais
fcil acesso  terra era a baa em que o castelo anterior, j praticamente em
runas, fora erguido.
Os proprietrios do velho castelo eram, ento, imensamente ricos.
Os vikings pilharam tudo o que podiam levar em seus navios. Para a famlia,
este lato constitura uma enorme tragdia.
Os invasores haviam, tambm, levado as jovens mais atraentes da vizinhana.
Desde pequeno, o duque lamentara a violncia dos vikings e a perda do tesouro.
Quando o velho castelo fora afinal demolido, dando lugar ao atual, a famlia
mudou seu nome para MacBaren.
O cl comentava que no possua mais nada e que no desejava lembrar os dias
felizes em que haviam sido to importantes.
Porm, de repente, sua fortuna mudara.
O chefe do cl desposara uma grande herdeira do norte da Inglaterra. Fora ela
que construra o novo castelo.
Assim, o cl, embora conservasse o nome de MacBaren, se tornara o mais
importante da regio norte.
O castelo fora ampliado ano aps ano.
O ducado, com um ttulo ingls, fora dado dos MacBaren no fim do sculo 17.
O dinheiro foi aplicado na enorme propriedade sem economia, surpreendendo o
resto da Esccia.
No apenas o castelo se tornara cada vez maior e mais bonito, como, tambm, os
vilarejos haviam progredido Com lindas casas construdas em seu redor.
Jardins floridos lembravam um conto de fadas.
Porm, o quarto duque descobriu, ao se tornar chefe do cl, que seu pai havia
gastado muito acima das posses. E que a situao financeira da propriedade
tendia a piorar de modo alarmante.
- No posso acreditar - se queixara a duquesa viva um sem-nmero de vezes.
Infelizmente era verdade.
Deste modo, como O cl esperava, o duque devia acertar a situao.
Com sua aparncia atraente, podia facilmente desposar uma herdeira, tornando o
cl to importante quanto o fora no passado.
A nica dificuldade era o prprio duque.
- No serei forado a casar com algum por dinheiro - repetia obstinado. - No
consigo imaginar nada mais odioso do que me ligar a uma mulher a quem no amo
e que poderia tornar minha vida difcil por ser ela quem controla o dinheiro.
- Mas, querido, no podemos continuar deste jeito - protestava a duquesa. -
Estamos sem fundos no banco e h reformas que precisam ser feitas.
O duque no a contradisse e ela prosseguiu:
- Um dos fazendeiros que mora nos limites da propriedade veio procur-lo
ontem. como voc estava fora, ele me relatou que os MacFallin esto furtando
nosso rebanho e tornando impossvel a vida para aqueles que tentam sobreviver
naquela parte da regio.
O duque suspirou.
H trs sculos os MacBaren eram inimigos dos MacFallin.
A animosidade entre os cls de vez em quando irrompia em luta de facto.
Actualmente se limitavam a roubar, uns dos outros, carneiros e gado ou, se se
encontrassem em um pub do vilarejo, se atacavam verbalmente.
E a razo era o dio entre ambos os cls.
A me se retirou da sala e o duque tentou esquecer a conversa.
Preferia apreciar a beleza do jardim, plantado do estilo francs e
estendendo-se at o mar.
Era sempre motivo de satisfao, para o duque, saber que poderia voltar para
casa em seu iate em vez de vir por trem. Velejar pela baa, ancorar no cais de
madeira e entrar directamente pelo jardim.
Porm, sempre, ao retornar, a cena de recriminaes se repetia, como a
precedente.
"No posso", ele repetiu para si prprio. aps a discusso.
Como estava se sentindo muito infeliz saiu para O jardim e encaminhou-se para
a beira-mar.
O sol brilhava contra um cu claro. As ondas pareciam danar na vastido do
mar.
O duque contemplou O espectculo por longo tempo.
Preferiria estar em um navio zarpando para uma aventura em terras
estrangeiras.
Ao retornar  casa encontrou a me  sua espera.
A seu lado estava uma parente que vivia a cerca de cinco quilmetros de
distncia.
- Soube que voltou, Alpin - ela cumprimentou - e tenho certeza de que se
divertiu em Londres.
-  verdade - confirmou o duque. - Foi muito gratificante ser convidado com
frequncia para Marlborough House.
- Oh, conte-nos o que o Prncipe de Gales est aprontando no momento -
rogou-lhe a prima.
Era a condessa de Dunfeld.
Ela e o marido possuiam uma casa e uma pequena propriedade que estivera nas
mos dos Dunfeld quase tanto tempo quanto os duques haviam vivido no castelo
de Barenlock.
- Naturalmente - prosseguiu a condessa - todos ns estvamos esperanosos de
que voc voltasse trazendo a notcia de que estava para se casar. Porm sua
me acaba de me dizer que ningum, no beau monde, conseguiu tocar seu corao
e que voc est resolvido a ser celibatrio.
- No serei forado a me casar, o que  algo muito diferente - protestou O
duque.
- Bem, tenho notcias para voc - comunicou a condessa. - Hoje devem chegar
duas jovens encantadoras. Uma  a filha de lorde Hanson, e a outra  uma
americana atraente e muito rica.
O duque deu uma risada.
- Se est tentando me levar ao altar com uma americana - ele disse - est
perdendo seu tempo. Havia muitas americanas em Londres, todas ansiosas em
voltar para casa com um ttulo. De facto, h tambm inmeros nobres italianos
dispostos a aceitar tal situao.
- Mas voc se recusou at mesmo a reflectir sobre a possibilidade - queixou-se
a condessa. - Oh, querido Alpin, que faremos com voc?
- A resposta  muito simples - o duque rebateu. - Quero que me deixem em paz.
Quando encontrar a pessoa certa eu me casarei e,  claro, darei a noticia a
vocs todos.
Saiu da sala ao terminar de falar.
Sua me fitou a condessa, fazendo um gesto desesperanado com as mos.
- No adianta. J cansei de falar com Alpin. mas ele est decidido a no se
casar e, como voc bem sabe  exatamente o que ele deveria fazer para salvar O
castelo e a propriedade.
- Sinto muito por sua causa - replicou a condessa.
- Acho irritante o facto de Alpin no se mostrar mais responsvel.
Aps uma breve pausa, ela continuou:
- Ele deve estar consciente das reformas necessrias. os membros do cl ficam
cada vez mais desassossegados por no poderem comprar novas ovelhas nos
mercados e os rios no esto sendo guardados como deveriam.
- Ouvi o comentrio de que O roubo de caa aumenta dia a dia - preocupou-se a
duquesa.
- Sinto, mas  verdade - asseverou a condessa. - Noite aps noite, os ladres
sobem o rio. Nenhum de ns emprega guardas em nmero suficiente para
impedi-los de roubar dois salmes.
A duquesa suspirou.
- J cansei de alertar Alpin. Mas ele garante que s se casar quando desejar.
Aps um breve silncio, ela perguntou:
- como  a jovem americana que voc vai trazer para c amanh?
-  muito atraente e inteligente - explicou a condessa. - Seu pai 
imensamente rico. Acredito que ele possui poos de petrleo entre outros bens
e, tambm, ganhou muito dinheiro com navios que esto sendo construdos na
Amrica.
- Enquanto isso, ficamos sentados aqui e fitamos os tijolos que caem do alto
do castelo - queixou-se a duquesa - e o solo continua sem cultivo por no
podermos nos permitir pagar homens para o trabalho.
- No fique deprimida, querida - pediu a condessa.
- Com certeza, mais cedo ou mais tarde, Alpin ter o bom senso de trazer uma
noiva para casa e ns a receberemos de braos abertos.
- No caso dele O que  mais provvel - alegou a me -  que nos apresente uma
moa de sua escolha sem um tosto.
Suspirou. Depois prosseguiu:
- Falarei outra vez com ele esta noite. Sei que me ama e deseja ver-me feliz.
como esta garota americana  muito rica, ele precisa compreender que deve se
sacrificar pelo bem do cl.
- Espero que consiga faz-lo compreender que tudo est nas mos dele -
completou a condessa. - Cabe a ns apenas oferecer-lhe pssegos numa bandeja e
esperar que ele apanhe um.
Olhou seu relgio de pulso e ergueu-se.
- Devo ir para casa - explicou. - Minhas convidadas devem chegar aps o ch e
eu as trarei para c amanh.
- Acho que seria ptima idia elas ficarem aqui. Por que no d algumas
desculpas, como alegar que voc est com nmero insuficiente de serviais e
vm todos para o castelo?
- ptima sugesto - concordou a condensa. - Em verdade  o que eu gostaria,
pois dois de nossos quartos precisam de consertos e cada moa traz uma criada
particular.
Aps uma pausa acrescentou:
- Naturalmente esto vindo de Londres com uma dama de companhia, porm, por
sorte, ela retorna amanh cedo.
- Bem, esperarei com ansiedade pela vinda de vocs antes do almoo -
pronunciou a duquesa. - Tenho certeza de que a jovem americana vai se
apaixonar pelo castelo e,  claro, tambm por Alpin.
A condessa deu uma risada.
- Ele  to bonito - comentou. - Contaram-me que vrias moas em Londres esto
prontas para cair em seus braos ante o menor aceno.
A duquesa suspirou.
- como pode ele ser to estpido? Deve haver ao menos uma moa que o acolheria
de braos abertos como sua nora.
- Naturalmente - concordou a condessa. - Sendo Alpin amigo do prncipe de
Gales, ele encontrou as maiores beldades e todas as grandes herdeiras.
- Por que ele  to tolo? - indagou a duquesa. J lhe disse que est ficando
cada vez mais velho.
A condessa deu uma risada.
- Todos estamos ficando - alegou - mas voc, querida, sempre foi uma beldade e
a histria de como seu marido se apaixonou por voc no momento em que a viu
foi relatada a todos ns.
Era uma histria muito romntica.
A condessa no compreendia a razo pela qual Alpin no fazia a me feliz,
casando-se e trazendo, como todos esperavam, muito dinheiro e vrias crianas
para o castelo.
Beijou a duquesa e se despediu:
- Verei voc amanh antes do almoo. No fale muito sobre a herdeira at que
Alpin a conhea amanh. Tenho certeza que ele decidir casar-se com ela.
- S espero que voc esteja certa - a duquesa comentou. - Mas conhece Alpin.
Se decidiu que no desposar uma americana ou qualquer outra estrangeira, nada
o demover da idia.
- Cruze os dedos e acredite que pode mudar de idia. - replicou a condessa.
Beijou a duquesa mais uma vez.
Saiu ento apressada em direco  carruagem que estava parada diante da porta
principal.

Fora sempre difcil aos duques de Barenlock saber que uma parte da
propriedade, que uma vez lhes pertencera, agora era de outro cl, o dos
MacFallin.
O acordo havia sido estabelecido h dois sculos. E, como os MacBaren na
ocasio no tinham fora para afast-los, ali haviam permanecido desde ento.
As terras pertencentes aos MacFallin no eram to extensas como as suas.
Entretanto, uma rivalidade amarga crescera durante sculos entre os dois cls.
Como muitos outros na Esccia, odiavam-se com tanto fervor que, se no estavam
lutando abertamente, exprimiam sua animosidade verbalmente e usando palavras
de baixo Calo.
O que aborrecia particularmente ao duque, mais que qualquer outro facto, era
que seu rio preferido atravessava a propriedade MacFallin.
Havia rivalidade contnua sobre quem conseguia pescar mais salmo.
A parte do rio que pertencia aos MacFallin corria mais de um quilmetro na
charneca. Ento, se alargava, formando um grande lago sob colinas elevadas.
O duque gostaria de possuir esse lago.
Possua inmeros outros lagos ao sul e excelentes rios a eles ligados.
Entretanto, aborrecia-o que parte de seu rio especial atravessasse territrio
dos MacFallin.
Com frequncia, lhe ocorrera que era realmente ridculo que os dois cls se
odiassem tanto.
Os MacFallin eram demasiado prudentes para se aventurarem, a no ser
excepcionalmente, na terra pertencente aos MacBaren.
O mesmo ocorria em relao aos homens do duque que raramente se infiltravam
nas terras pertencentes aos MacFallin.
"Tudo isso  ridculo", reflectiu o duque, devamos ter superado essa
insensatez h muitos anos".
Porm, infelizmente, o dio mtuo ainda existia.
Quando o conde que dominava o cl dos MacFallin e o duque se encontravam,
durante os jogos regionais, ou em qualquer outra ocasio oficial, apenas se
cumprimentavam com um leve aceno de cabea.
Nunca se falavam.
Algumas vezes o duque recebia cartas briosas do conde alegando que suas terras
haviam sido invadidas.
Ou que um MacBaren havia furtado algumas de suas ovelhas.
O duque jamais respondia assinando uma carta. Ordenava que algum funcionrio o
fizesse.
Estava a par que o conde costumava referir-se a ele de maneira extremamente
ofensiva.
Andando ao longo da margem do rio, o duque sentiu falta de sua vara de pescar.
Se dispusesse do material necessrio, com certeza pescaria um ou dois salmes
frescos.
Ento avistou, logo  sua frente, algum pescando.
Estava de seu lado do rio.
Quem poderia ser?
Talvez a me, em sua ausncia, houvesse autorizado algum visitante a pescar no
local.
Mas, como ele retomara j h dois dias, ela o teria notificado da permisso.
Sem dvida, quem estava pescando era um invasor. Ali, o rio formava uma curva
e havia arbustos, ao redor.
O duque s avistou o invasor ao ultrapassar algumas rvores e chegar a uma
clareira.
Tratava-se de uma mulher.
Sem dvida uma estranha.
Ele se aproximou muito zangado.
- O que est fazendo aqui? - perguntou rispidamente enquanto a pessoa ainda
estava de costas para ele.
Ela deu um gritinho e deu meia volta. Era muito jovem e atraente.
- Desculpe-me - pediu. - Vim muito longe? Advertiram-me para parar onde
terminasse a terra MacFallin, mas no sabia exatamente onde era.
- Est em minha propriedade - o duque declarou com dureza. - E, de facto. est
furtando. Ficaria muito grato se inibisse o rio de volta ao menos duzentos
metros.
- Sim, naturalmente e desculpe-me... - balbuciou a mulher.
Ela comeou a puxar a linha.
De repente deu um grito.
-  um salmo! - exultou. - O que devo fazer?
O duque tivera a inteno de dizer que libertasse o peixe. Porm, ela estava
pescando muito bem.
Mantinha a linha firme e, ao mesmo tempo, deixava a ponta da vara cair quando
o salmo saltava.
Estava to excitada com a perspectiva da pesca que ele no conseguiu impedi-la
de prosseguir.
O peixe lutava bravamente pela liberdade.
O duque apreciava uma mulher que sabia exatamente o que estava fazendo,
mantendo a presa sob controle com maestria perfeita.
Desceu um pouco pelo rio porm ainda tinha controle completo sobre o salmo,
que devia estar chegando do mar.
Quase sem pensar, o duque apanhou a rede que estava no cho e a seguiu.
Finalmente, aps uma excitante batalha, o peixe parou de lutar.
O duque inclinou-se para a frente e o apanhou na rede.
- Consegui! Consegui! - exclamava a mocinha. - Sabia que pegaria um salmo se
tivesse sorte, mas jamais teria conseguido terminar se voc no estivesse aqui
e o tirasse da gua.
Ela falava to excitadamente que o duque perguntou:
-  a primeira vez que consegue pescar?
- A primeira na Esccia - ela replicou. - J pesquei trutas no rio perto de
casa, mas isto  diferente. Jamais experimentei sensao to excitante.
O duque sorriu. Lembrava-se da primeira vez que pescara um salmo. Tinha
apenas oito anos e o levara orgulhoso para casa para mostr-lo aos pais.
Ambos haviam ficado encantados pois era um peixe enorme.
Ele se abaixou para retirar o anzol da boca do salmo dizendo:
- Este peixe acaba de chegar do mar. Acho que deveria mandar empalh-lo e
conserv-lo como um trofu.
A jovem deu uma risada.
- Acho que ningum, alm de mim mesma, vai admir-lo. Meu pai j apanhou
tantos que no se importa com mais um.
Olhava para o salmo. Depois decidia-se:
- Acho que devo agir correctamente e dar-lhe o peixe, pois estou em suas
guas.
- Aceite como presente meu - o duque ofereceu. - Seria uma crueldade priv-la
de seu primeiro salmo, quer voc o conserve quer o coma.
A moa estava ajoelhada contemplando sua presa, como se no conseguisse
acreditar no que conseguira.
Devia pesar cerca de trs quilos.
- Precisa andar muito para lev-lo, ou prefere que eu a ajude? - perguntou o
duque.
A jovem o fitou. Seus olhos azuis contrastavam com a clara pele rosada.
-  muito gentil - agradeceu. - Em verdade, desci com o guia. Mas ele cortou a
mo em uma lasca vidro e voltou para cuidar do ferimento enquanto eu
continuava a pescar.
- Com certeza ele deve ter-lho dito onde ficava o limite do rio - comentou o
duque.
A mocinha olhou ao redor.
- Suponho estar na terra dos MacBaren, que ns sempre detestamos. Mas, com
frequncia me ocorreu que talvez eles no sejam to maus como pensamos. 
O duque a fitou. Depois proferiu vagarosamente:
- Pela maneira como fala, imagino que seja uma MacFallin. 
- Sim, sou - confirmou a jovem.
De repente, ela deu um gritinho.
- Voc no  o duque de Barenlock? ? No pode ser!
-  assim to terrvel? - indagou o duque sorrindo.
- Jamais me ocorreu que o duque seria como voc - ela explicou.
- Sinto desapont-la.
- Por favor, no  isso - ela respondeu. - Sempre achei que o duque era velho,
feio e de algum modo parecido com o demnio.
O nobre riu.
- Sinto muito - disse.
-  bobagem minha pensar desta maneira - ela prosseguiu. - Mas, desde quando
minha lembrana alcana, meu pai e meus tios sempre tm dito coisas horrveis
a seu respeito. - Por que agem assim?
- Deve saber - explicou o duque - que os cls escoceses esto sempre em luta
contra algum. Neste momento, no h um inimigo do exterior, ento lutam entre
eles prprios.
- Sim, naturalmente, estou a par. Mas agora que voltei para casa acho isso
ridculo.
- Onde estava? - inquiriu o duque?
- Fui criada por minha av que vivia sozinha. como nossa famlia  muito
grande, fui enviada para viver com ela em Londres e, de vez em quando vinha
para casa.
- Ento o que sabe sobre a Esccia? - indagou o duque.
- Muito pouco - confirmou a mocinha. - De facto, h cinco anos no vinha para
c. Quando vinha, ficava pouco tempo.
- E por que est aqui agora? - questionou o duque.
- Minha av morreu e voltei para minha famlia.
-  muito difcil adaptar-me depois de tanto tempo. Quando riram de mim porque
jamais havia pescado um salmo, decidi pescar um para ver o que conseguia.
- E obteve sucesso - o duque comentou, ainda segurando a rede com o peixe -
Acho que o melhor a fazer  carreg-lo para voc at a estrada. Com certeza,
algum deve passar indo em direco  casa de seu pai e voc obter transporte
com facilidade.
-  muita bondade sua - disse a moa. - Mas sinto-me culpada, pois alm de ter
roubado seu salmo ainda se prope a carreg-lo.  quase um insulto.
O duque riu.
- Garanto que sobreviverei - argumentou tranquilo. - Embora nossos
antepassados sejam inimigos h inmeras geraes.
- Sim, o que foi muito estpido da parte deles - replicou a jovem.
- Qual  seu nome?
- E Sheinna - ela respondeu. - Significa canto em galico.
- E voc canta? - perguntou o duque.
- Em verdade, sei cantar - ela replicou. - Foi at mesmo sugerido que eu
cantasse no palco. Mas minha av ficou horrorizada com a idia e acho que meu
pai concordaria com ela.
- O que pretende fazer agora que voltou para casa?
- Vou aprender a pescar e, suponho, ouvirei histrias terrveis a seu respeito
e sobre seu cl. Lembro de eles contarem coisas horrveis antes de eu poder
mesmo andar.
O duque deu uma risada.
- Parece ridculo na poca actual que ainda disputemos uns com os outros. H
guerras muito mais importantes para as pessoas lutarem.
- como lutar contra os ladres de caa e de pesca, por exemplo - Sheinna
comentou. - Meu pai fica furioso com o que fazem do outro lado de suas terras
e sei que este lado tambm  infestado durante a noite. Naturalmente, ele o
censura por no vigiar o suficiente.
- Bem que gostaria - replicou o duque. - Mas, infelizmente, como muitas outras
pessoas, no posso me permitir empregar tantos homens quantos seriam
necessrios, especialmente no que diz respeito aos guardas de rio.
- Sua situao financeira  difcil? - ela indagou. - Sempre o imaginei
imensamente rico e que estaria sempre sentado contando suas moedas de ouro,
enquanto ns sempre precisaramos pensar antes de gast-las.
- Bem que gostaria que essas libras de ouro fossem verdadeiras, mas s existem
em minha imaginao - afianou o duque.
- E, naturalmente, nas histrias dos grandes tesouros que lhe foram roubados
h muitos anos pelos vikings.
O duque riu.
- Ento conhece a histria.
-  claro. Minha bab costumava contar-me todas as histrias da Esccia. Amo
todos os relatos e no esqueci nenhum.
- Tenho certeza de que desconheo boa parte deles! - garantiu o duque. -
Talvez poderia pedir-lhe para escrev-los para mim, ou ento contar-me quando
nos encontrarmos. Em troca, dou-lhe permisso para pescar amanh no mesmo
trecho em que pescou hoje.
- Faria mesmo isso? - indagou Sheinna.
Olhou em outra direco para que ele no visse sua perturbao.
- Est pensando que seu pai desaprovaria...
- Sim, naturalmente,  o que estou pensando. Ele odeia seu cl, fomos criados
para detest-lo. Suponho que voc e eu no podemos fazer nada a a esse
respeito.
- Vou lhe dizer o que faremos - resolveu o duque.
- como me aborrece que ainda persista essa animosidade entre nossos cls, se
voc acordar amanh bem cedo e vier aqui sozinha, eu a encontrarei e agirei
como seu ajudante.
Os olhos da moa faiscaram.
- Imagine como papai ficaria zangado e, tambm, todo o seu cl se soubessem
disso.
- Acho difcil que venham a saber. como obteve sucesso em pescar meu salmo,
acho que devo ajud-la a pescar mais dois ou trs e depois voltarmos a jogar
lama um no outro.
A jovem riu e o som de sua voz era encantador.
- Jamais farei isso depois de sua bondade. Poderia ter-me obrigado a libertar
o salmo e eu passaria o resto de minha vida a suspirar pelo peixe que jamais
apanhei.
- Agora pode pensar naquele que apanhou - ralhou o duque - e  justo que
pesque mais dois ou trs.
- Se est disposto a arriscar, ento  o que farei - Sheinna afianou. - Mas
sabe o que diro a nosso respeito se nos virem?
- Acho que ser o incio de uma luta entre nossos cls como jamais houve
antes. Mas arriscaremos e, se eles se tornarem de facto importunos, precisarei
pedir-lhe para devolver-me o salmo, para que possa coloc-lo numa caixa de
vidro e dizer que eu o tomei dos MacFallin depois de eles tentarem roub-lo de
mim.
A jovem riu.
-  exactamente o modo como uma nova guerra pode comear entre ns. Porm, a
est algo que voc e eu devemos impedir em definitivo se conseguirmos.
- Podemos ao menos tentar - completou o duque.
- Tenho certeza de que concorda comigo que toda essa animosidade  ridcula e
constitui algo que jamais deveria ter acontecido. Com certeza, ser repudiada
agora que somos mais velhos e mais sbios.
Porm, enquanto falava ocorria-lhe que os MacFallin no haviam com certeza se
tornado mais sbios.  excepo desta muito bela jovem.
Estavam se aproximando da estrada.
Ele avistou  distncia uma carreta aproximando-se vagarosamente.
 - No fao a menor idia - ele observou - se se trata de algum de seu cl ou
do meu. Mas seria um erro, se desejamos nos encontrar amanh cedo, sermos
vistos juntos. At logo, lady Sheinna e espero que consiga sair furtivamente
por volta das sete horas. Eu a estarei esperando.
- Fique certo que estarei l - replicou Sheinna - e obrigado por tanta
gentileza.
Apanhou o salmo e encaminhou-se resoluta para a estrada.
Ele se esgueirou por entre as rvores.
Quando alcanou a margem do rio e olhou para trs viu a carreta dando meia
volta e levando a jovem para casa.
Sem dvida, fora um encontro inesperado, ele reflectiu sorridente.
Na manh seguinte, ele prprio tentaria apanhar dois ou trs salmes. E era
divertido pensar como ficaria zangado o pai de lady Sheinna se soubesse de
seus planos.

Captulo 2

O duque voltou para casa encantado com a manh que passara.
A duquesa me no desceu para o caf. Depois de ter terminado a refeio,
recebeu diversas pessoas da propriedade. Deram-lhe vrios relatrios sobre as
actividades em que estavam envolvidas. Em particular, falaram das boas
perspectivas de vendas dos cordeiros.
- Este ano, Sua Graa - relatara o chefe do rebanho de ovelhas -, obteremos um
preo melhor do que nunca.
- So notcias ptimas - comentou o duque. Elogiou todos os trabalhadores a
seu servio. Almoou com a me que o colocou a par das ltimas novidades da
vizinhana. Ela tambm informou-lhe que a condessa, com duas jovens que
desejava lhe apresentar, chegaria na hora do ch.
- Eu preferia ficar sozinho com voc, mame, depois de ter ficado fora tanto
tempo - replicou o duque.
- Eu sei, querido - retorquiu a duquesa -, mas Moira Dunfeld est resolvida a
trazer a jovem americana para apresentar-lhe e estou certa de que voc a
achar encantadora
O duque acreditava no contrrio, mas percebeu que seria errado discutir.
Assim, pediu:
- Por favor, mame, no force nada. Sinto-me muito feliz com voc e no desejo
outra mulher no castelo.
A me suspirou, mas sabia que seria um erro insistir no assunto.
Em vez disso perguntou:
- Quando vai pescar, querido?
- Esta tarde. Ento, se me atrasar para o ch, deve pedir que me desculpem.
Acho que j est na hora de eu apanhar um salmo.
- os guias de pescar esto ansiosos  sua espera - explicou a duquesa - e
ficaro desapontados se voc no conseguir uma grande presa.
O duque sorriu.
Ao descer, j decidira de antemo chegar atrasado para o ch.
Pescou trs salmes. Chegou atrasado, mas triunfante.
A duquesa o aguardava no salo de estar, que dava para o jardim e tinha uma
vista esplndida para o mar.
Assim que entrou pelo aposento, todos os olhos se voltaram em sua direco.
Inclinou-se para beijar a me e estendeu a mo  condessa.
- Que bom estar de volta, prima Moira - ele cumprimentou.
- Voc nos negligenciou tempo demais - queixou-se a condessa -, trocando-nos
pelas as actividades londrinas.
- Sem dvida, foram muito agradveis - replicou o duque. - Mas alegra-me
voltar para casa.
- Desejo que conhea duas belas jovens - disse a condessa. - Naturalmente
lembra-se de Chalrote, embora ela tivesse apenas dezasseis anos quando a viu
pela ltima vez.
O duque apertou a moda Jovem.
Chalrote deixara de ser a menina desajeitada de que se lembrava e se tornara
elegante e muito bonita.
- Estou encantada por voltar ao castelo - ela falou ao duque. - Quando contei
a minhas colegas de escola que costumava vir para c com frequncia, elas
sentiram inveja. De facto, todas desejavam visitar o castelo.
- Tenho certeza de que h muitos castelos para elas verem na Inglaterra -
replicou o duque -, sem precisarem vir to longe.
- Bem, Mary-Lee diz que no h castelos na Amrica e que est extasiada por
conhecer o que ela chama "um duque de verdade", e tambm pela oportunidade de
ver seu castelo.
O duque riu.
Apertou a mo da bonita moa americana. Era extraordinria a diferena entre
as amigas. Embora tivessem a mesma idade, a estrangeira parecia mais
experiente do que a colega de escola.
- Acho este castelo muito belo - comentou Mary-Lee. - Desejo explor-lo de
cima para baixo.
- Poder faz-lo - replicou o duque. - Com certeza Chalrote se lembra de tudo.
- Sei o que Mary-Lee quer em verdade - interrompeu a condessa. - Que o dono do
castelo lhe mostre tudo.
Como sempre, sua parente tentava impingir-lhe uma noiva, pensou o duque.
Mas limitou-se a dizer:
- Se Chalrote no se lembra, Roy ser o melhor de todos os guias.
Roy era o mordomo.
Era visvel a expresso de aborrecimento no rosto da prima ao perceber que ele
no se deixaria enredar com facilidade, como havia imaginado.
Ele se sentou prximo da mesa de ch.
Enquanto a me o servia, ele apanhou um doce.
- O salmo que voc pescou era muito grande, primo Alpin? - perguntou
Chalrote.
- Um pesava mais de trs quilos - contou o duque, - mas os outros dois,
lamento dizer, eram menores.
- Entretanto, voc os apanhou - Chalrote comentou - e  o que desejo fazer
agora que voltei para c. Por favor, Mary-Lee e eu podemos pescar com voc
amanh?
- O que est acontecendo em seu prprio rio? - o duque perguntou, olhando para
a condessa.
- No temos obtido muito sucesso - ela explicou.
- como voc sabe, seu rio  o melhor de todos.
- Devo descobrir o que est acontecendo nos outros - retorquiu o duque. - Em
verdade, o meu no tem estado to bom como costumava ser.
- os guardas do rio e todas as pessoas sempre dizem que costumava ser melhor
no passado - ponderou a duquesa. - Tenho ouvido comentrios desde que vim para
c. Sem dvida, dispomos do melhor rio da Esccia.
- Espero que o seu seja melhor protegido do que o nosso - comentou a condessa.
- Sabemos de facto que ladres invadem todas as noites nossas terras. como os
invasores se mantm em movimento, e s dispomos de dois velhos guardas, eles
nunca so apanhados em flagrante.
- Se quer saber minha opinio - comentou a duquesa - acho que inmeros
invasores esto aliados com os guardas dos rios. Estes recebem uma propina e
fecham os olhos para o roubo.
- Pergunto-me se isso  verdade - reflectiu o duque.
- Nunca me ocorreu tal idia, mas, naturalmente, pode acontecer.
- Certamente acontece aqui - asseverou a condessa. Sempre ouo pessoas se
queixando a esse respeito.
- Bem, darei ateno a tal reclamao agora que voltei para casa - prometeu o
duque.
- E, por favor, antes que os ladres roubem todos os peixes, podemos
experimentar tambm? - pediu Chalrote.
- Naturalmente - concedeu o duque - e tomarei providncias para que disponham
do melhor guia para acompanh-las e mostrar-lhes onde podem pescar.
- Obrigado, obrigado - agradeceu Chalrote. - Se Mary-Lee pescar um salmo ela
mandar empalh-lo e o enviar ao pai na Amrica para mostrar-lhe como 
desportiva.
- Sei que papai ficar muito impressionado se eu pescar um peixe no rio do
duque - explicou Mary-Lee.
- Com certeza, ter tal oportunidade - garantiu o duque.
- E, naturalmente - acrescentou a condessa - seria mais excitante se voc,
Alpin, ensinasse Mary-Lee a pescar.
A prima tentava impor a jovem americana ao duque, dois minutos aps terem sido
apresentados.
Ele no respondeu.
Preferiu estender sua xcara de ch para a me, dizendo:
- Pode me dar mais ch, mame e, por favor, conte-me o que fez hoje.
- Nada que no considere extremamente aborrecido, querido - replicou a
duquesa. - Porm, receberemos pessoas agradveis para jantar. Viro jovens
para conhecer as moas, bem como uma encantadora lady que anseia
reencontr-lo.
- De quem se trata? - inquiriu o duque.
- Ser uma surpresa - afianou a duquesa. - Espero que ao v-la se lembre
dela.
- Diga-me quem  - pediu o duque.
- Contarei mais tarde - respondeu a duquesa.
Pretendiam mant-lo distrado enquanto estivesse em casa, pensou o duque. No
percebiam que preferiria ficar sozinho com a me.
Tambm queria se concentrar na pescaria em vez de entreter amigos da
vizinhana.
Tambm lhe desagradava que lhe impingissem mocinhas.
Sem dvida, Mary-Lee era bastante atraente, porm demasiado jovem para ele.
Nada teriam em comum.
"Excepto, naturalmente", segredou-lhe uma voz interior, "que ela  muito
rica".
Por essa razo, a condessa a trouxera para conhec-lo. A prima e a me estavam
decididas que ele assumisse uma rica esposa o mais cedo possvel.
O duque retirou-se para seu estdio, que tambm era uma biblioteca muito
especial.
Outra biblioteca no castelo conservava os livros mais antigos da Esccia.
Porm em seu estdio ele conservava apenas livros modernos.
Ele os havia encomendado em Edimburgo. Era uma de suas extravagncias, da qual
ele no desistiria por mais difcil que fosse sua situao financeira.
Se no estivesse viajando na realidade, poderia viajar na imaginao.
Apreciava, em particular, os livros recm-publicados sobre o Extremo Oriente.
Ao fechar a porta de seu estdio e sentar-se  mesa, dizia a si prprio que a
prxima vez que viajasse iria mais longe do que nas ocasies anteriores.
"De outro modo", reflectiu "acabarei casado mais cedo do que o desejvel e
ento ser impossvel visitar os lugares que desejo conhecer."
Ansiava por visitar o Nepal. Se possvel, desejava conhecer o Tibete.
"Se esperar muito", pensava, "ser demasiado tarde. Sem dvida serei envolvido
num casamento, por mais que tente salvaguardar minha liberdade."
Estava h pouco em seu estdio, quando a porta se abriu e a condessa deu uma
espiada no interior.
- Achei que estaria aqui, Alpin - ela comentou -, e queria falar-lhe.
O duque ergueu-se, educado.
Queria ficar sozinho e em silncio, mas no podia ser rude com a prima.
Apesar de ela estar sempre se preocupando com seu eventual casamento,
queria-lhe muito bem.
- Preciso escrever algumas cartas, Moira - ele explicou. - Mas, naturalmente,
estou encantado por rev-la e  muita bondade sua passar tanto tempo com
mame. Sinto sempre receio que ela se sinta sozinha e infeliz durante minha
ausncia.
- Ela ama t-lo em casa - ponderou a condessa.
- Tambm, quando voc se afasta  uma pena que no possa deixar-lhe netos em
companhia.
O duque ergueu as mos exasperado.
- Outra vez o mesmo argumento! - queixou-se. - Sabe to bem quanto eu que h
muito tempo para eu ter um bando de crianas cansativas e no tenho a menor
inteno de me casar neste momento.
Falava com firmeza, com o se tentasse imprimir na mente da prima de uma vez
por todas que seus arranjos matrimoniais estavam fadados ao insucesso.
Entretanto, a condessa limitou-se a rir e sentou-se numa poltrona confortvel.
- Oua o que vou lhe dizer, Alpin - pediu.
- No, se o assunto for casamento - afianou o duque. - Esse assunto 
proibido.
- Proibido ou no - replicou a condessa - preciso dizer-lhe que Mary-Lee  uma
das mais ricas herdeiras da Amrica. como sabe,  muito diferente de dizer que
 uma das mais ricas moas da Inglaterra.
- No estou interessado - garantiu O duque. -  uma moa bonita, mas me sinto
velho como se fosse seu pai. Alm disso, no momento no pretendo desposar
ningum.
- Oh, realmente, Alpin, voc precisa ser to difcil e to estpido sobre este
assunto? - repreendeu a condessa.
O duque no respondeu.
Aps um momento, ela continuou:
- Voc seria muito mais feliz com uma jovem a quem poderia ensinar a amar como
deseja ser amado, e que ouviria com adorao tudo o que voc lhe dissesse, do
que se desposasse uma jovem empertigada, consciente de suas prprias
atraces, sabendo que a principal  seu dinheiro.
- Esta pode ser sua idia de um casamento feliz - disse o duque, - mas no  a
minha. Moira, no aguento mais O assunto e recuso-me a voltar a discuti-lo.
- Para voc  muito fcil falar - contrariou a condessa. - Mas j percebeu que
o castelo est caindo aos pedaos por falta de reformas, que a propriedade 
ridicularizada pela maioria da vizinhana e que voc prprio est aviltando
deliberadamente o nome da famlia ao no cumprir seu dever em agir com um dos
mais importantes proprietrios de terras da Esccia?
O duque nada respondeu.
Aps um momento, a condessa prosseguiu:
- Ns todos o amamos e desejamos sua felicidade, porm, Alpin, deve
compreender que a situao no pode continuar como est no momento.
- No vejo nada de errado - contradisse o duque. - Dispomos de serviais em
nmero suficiente e no despedi ningum que trabalhava aqui na poca de meu
pai.
- Voc no despediu, mas muitos morreram ou esto muito velhos para trabalhar
- rebateu a condessa. 
- Sabe to bem quanto eu que no dispomos de nmero suficiente de pastores,
que o nmero de guardas do rio minguou tanto que os ladres podem agir impunes
todas as noites. como j disse, O castelo necessita de centenas de consertos
aos quais voc fecha os olhos.
O duque levantou-se e atravessou O aposento, devagar, aproximando-se da
janela. Contemplou O mar, pensando que era bonita a vista e quanto O castelo
significava para ele.
Mas como poderia enfrentar a si prprio se desposasse uma moa apenas por seu
dinheiro?
Violaria todos os sonhos que em segredo alimentara durante toda a vida.
E, pior, afectaria seu orgulho.
Era impossvel explicar a algum, mesmo  me, que um dia encontraria uma
mulher a quem amaria, respeitaria e admiraria.
Faria com que ela partilhasse da direco do domnio que ele recebera, uma
herana que passava de gerao em gerao h mais de quinhentos anos.
Naturalmente, estava bem consciente da necessidade de dinheiro.
Tambm precisava de recursos para introduzir inovaes.
Porm, de alguma maneira, no extremo norte, isso no parecia de grande
importncia como na Inglaterra.
Sentia-se feliz na propriedade do jeito como era. Mas, seu contentamento era
perturbado pelos parentes. como a condessa, estavam sempre a importun-lo para
que melhorasse a situao financeira.
Com recursos apropriados poderia instalar equipamentos modernos e devolveria O
domnio a seu esplendor antigo. Para os familiares, a nica maneira de
contornar O problema era pela ligao com uma rica herdeira que desejasse ser
duquesa.
Se lhe tivessem dito com franqueza que ele nada tinha a oferecer alm do
ttulo, ele os teria respeitado.
Porm, sempre argumentavam como se quisessem que ele se casasse apenas para
produzir um herdeiro. E, deste modo, rebaixavam tudo.
Nos ltimos cinco anos conseguira repeli-los, passando a maior parte de seu
tempo em viagem.
Tentam acreditar que, de algum modo, tudo mudaria para melhor. Que, ao
retornar, a necessidade de dinheiro no se revelaria to urgente como era ao
partir.
Aps ter conversado com seus empregados pela manh, dera-se conta de que a
situao era pior do que esperara.
Fora mais uma vez confrontado com dvidas que deviam ser pagas e com a
inevitvel questo: como?
O duque se afastou da janela e aproximou-se da prima.
Fitou-a por um breve momento. Depois sentou-se a seu lado.
- Suponho que deveria ficar grato - declarou - que esteja interessada em mim
como pessoa. Tambm - quero crer que goste de mim independentemente de minha
posio na famlia.
- Sempre o amei desde pequenino - replicou a condessa. - Mas, como voc era
filho nico, seus pais o estragaram e deixaram que fizesse tudo como bem
entendia. como sabe, casei-me com David assim que deixei a escola porque ele
herdaria um ttulo.
- Certamente voc o amava - interrompeu o duque.
- Sentia por ele o que eu acreditava ser amor, no tendo nenhuma experincia a
esse respeito - explicou a condessa. - Temos sido muito felizes. como sabe,
David  encantador e seria difcil no gostar dele.
Aps uma pausa, ela prosseguiu:
- Tambm no foi o amor de conto de fadas que certamente voc tem em mente.
- No fazia a menor idia - explicou o duque. - Sempre acreditei que voc e
David haviam se apaixonado  primeira vista e que o seu era um casamento
ideal.
-  verdade - concordou a condessa. - Temos sido felizes. Porm, estou apenas
querendo lhe dizer que pode encontrar o mesmo muito facilmente.  intil
esperar que os cus se abram e algum anjo caia em seus braos.
- Acredita ser essa minha pretenso? - o duque indagou, apertando os lbios.
- Naturalmente  o que espera - concordou a condessa. - Nos ltimos seis ou
sete anos voc teve a oportunidade de desposar inmeras belas mulheres que
tambm lhe teriam dado os recursos de que tanto necessita o castelo.
Aps uma pausa, ela prosseguiu:
- De facto, sua me e eu estvamos, outra noite, contando o nmero dessas
possveis noivas, e nos perguntvamos por que voc no havia aproveitado as
oportunidades.
O duque nada respondeu e aps um momento ela completou:
- Sei a resposta. Voc tem estado  espera do amor. O amor verdadeiro, sobre o
qual leu nos livros.
Ela olhava ao redor, enquanto falava e ergueu as mos para cima, apontando as
prateleiras que cobriam uma parede inteira.
- Dei uma olhada em alguns desses livros e todos se referem ao amor que um
homem encontra uma vez em um milho de anos! No pode esperar ter tudo na
vida.
- O que est querendo dizer? - inquiriu o duque.
- Est pedindo demasiado - redarguiu a condessa.
- Tem seu ttulo, o castelo, a maior propriedade do norte da Esccia e ainda
espera encontrar o amor que raramente  encontrado pelos que o procuram.
Muito, muito raramente ele acontece.
- No entanto,  algo - pronunciou o duque, devagar - que  o desejo de todos.
- Do mesmo modo como todos querem ser milionrios - asseverou a condessa. -
Mas acontece apenas para poucas pessoas.  ridculo voc acreditar que,
dispondo de tanto, ainda possa sentar-se e pedir mais.
- Est me deixando deprimido - queixou-se o duque.
- No, no estou - contradisse a condessa. - Estou tentando fazer que recupere
o bom senso.  razovel que case com Mary-Lee enquanto ela se sente atrada
por seu ttulo e pelo castelo. Depois, poder transform-la no que desejar e
todos ns o ajudaremos.
O duque jamais desejaria que seus parentes, mesmo sua me, interferissem com
sua esposa.
Mas seria um erro revelar suas idias. Por isso, sentou-se em silncio.
- No h necessidade de se apressar - dizia a prima.
- Mas peo que seja sensato ao menos uma vez e compreenda que no tem a vida
inteira para se decidir.
O duque queria argumentar mas a condessa prosseguiu:
- Deve perceber que o casamento  o melhor caminho, e compreender que esta 
uma grande oportunidade, que poder no se repetir, a de desposar Mary-Lee.
No se trata apenas de uma milionria, mas de uma moa muito doce.
Aps uma longa pausa o duque falou:
- S posso lhe agradecer ter sido to franca comigo e certamente levarei em
considerao tudo o que acaba de me dizer.
A condessa deu um gritinho de deleite.
-  o que desejava ouvi-lo dizer. Oh, Alpin, seja sensato. Sua me est
aterrorizada que voc deixe escapar a oportunidade. Ela sabe melhor do que eu
quanto dinheiro  preciso para o domnio e como sua dvida no banco est
alcanando patamares incontrolveis.
O duque detestava conversar sobre seus assuntos particulares, mas ela
continuou:
- Tambm  impossvel para voc continuar a contrair dvidas cada vez mais
pesadas toda vez que vai a Londres ou viaja para o exterior.
O duque reconhecia a sensatez das palavras mas havia preferido fechar os olhos
para a realidade.
Tambm no lhe agradava, embora fosse difcil reconhecer, o facto de que a
condessa, que afinal era apenas sua prima, soubesse tanto sobre seu saldo
bancrio.
Ao mesmo tempo entendia que a me, ao se encontrar sozinha no castelo,
confidenciasse a um parente e no a um amigo.
- Muito bem, Moira - declarou. - Reflectirei sobre o que voc acaba de me
falar e, embora no faa promessas, examinarei melhor nossa posio financeira
e avaliarei quanto dinheiro o domnio necessita.
- Tenho certeza que agir do melhor modo - proferiu a condessa.
Enquanto falava, ela olhava para a bela pintura pendurada sobre a lareira.
Aps um momento, declarou:
- Naturalmente h objectos que podem ser vendidos no castelo mas seria um erro
no deixar nada para seu filho.
O duque manteve silncio e ela continuou:
- Lembro-me de seu pai quase chorar quando precisou vender o enorme quadro que
estava pendurado no hall. Ali estivera por mais de cem anos, mas ele recebera
uma oferta to grande que no pde recusar.
Deu uma risadinha antes de dizer:
- Eu era muito jovem na ocasio, mas quando foi levado seu pai disse:
- Se aqueles malditos vikings no tivessem levado embora os tesouros do
castelo eu no precisaria vender esse Van Dyck. Que eles apodream no inferno
para onde certamente tero levado os tesouros do castelo.
E a condessa completou, rindo:
- Nunca esqueci suas palavras e cada vez que algum menciona os vikings penso
neles sentados sobre os tesouros que roubaram, embora acredite que o que
levaram de mais valor foram as lindas aldes que raptaram.
O duque riu.
- Tudo bem, censurar os vikings - declarou ele - mas alguns de meus
antepassados foram perdulrios e, naturalmente, voc acredita que herdei as
ms qualidades.
- No  verdade - replicou a condessa. - Voc  belo, caro Alpin. Suspeito que
sua altura e os olhos azuis revelam sangue viking.
- Tolice...
- Muito escoceses desta tm mesma caracterstica - continuou a condessa - e
como explicar esses traos a no ser pelos invasores?
O duque deu uma risada.
- J comentaram comigo sobre o assunto - informou - e sempre achei divertido.
Tudo bem que eu seja um viking e reservo-me o direito viking de escolher a
mulher que desejo e roub-la de seu lar.
A condessa deu um grito e levou as mos para o alto.
- No est sugerindo que poderia desposar uma estrangeira?
- Pensei que fosse sua sugesto - replicou o duque.
A condessa baixou as mos e disse:
-  claro. Entretanto, para mim, as americanas no so estrangeiras.
Referia-me quelas que falam uma linguagem diferente da nossa, como as
norueguesas ou as suecas e, naturalmente, as francesas, com os quais voc
passa tanto de seu tempo.
- Agora est tornando tudo mais difcil para mim - queixou-se o duque.
Seus olhos brilhavam e ele estava apenas brincando.
Neste momento a condessa deu um gritinho.
- No suportaria ver voc trazendo para c uma esposa francesa, alem ou
espanhola - declarou. - No passariam de estranhas no castelo.
- Pelo que esteve me dizendo, acho que deseja manipular o mundo da maneira
como lhe apraz - comentou o duque. - como j lhe prometi, prima Moira,
reflectirei sobre o que me disse com o mximo cuidado.
- O que precisa entender, Alpin - redarguiu com firmeza a condessa -  que por
mais que tente se esquivar, precisa compreender a necessidade de se casar o
mais rpido possvel. Com certeza, todos os outros parentes so do mesmo
parecer.
-  verdade - comentou o duque vagarosamente.
- Enquanto esteve ausente - explicou a condessa -, decidiram que cada um
deveria falar com voc para convenc-lo da seriedade da situao.
Falava com tom de voz diferente.
O duque a fitava atnito.
- J disse o que pretendia, prima Moira - comunicou em voz firme. - Vamos
deixar as coisas neste ponto. Desculpe-me mas preciso enviar uma mensagem para
um dos guardas que devem trabalhar esta tarde no rio.
Saiu do aposento ao terminar a sentena.
A condessa suspirou.
Reconhecia que errara ao mencionar a inteno de os outros membros da famlia
conversarem com o duque.
No entanto, era urgente que o primo entendesse o que se passava.
"Talvez eu tenha exagerado", disse a si mesma enquanto atravessava a sala.
"Mas quanto mais cedo ele enfrentar a realidade, tanto melhor."
O duque no sara para procurar o guarda de rio que mencionara.
Subira a escada que conduzia a uma das torres num dos cantos do castelo.
Dali havia uma vista magnfica no apenas do domnio mas tambm do outro lado.
Do alto da torre a viso era magnfica. O jardim terminava na linda baa. As
urzes adquiriam um tom purpreo nas terras de caa.
As estranhas luzes, que s eram encontradas no extremo norte, tornavam a terra
e o mar parte de uma terra de sonho.
Depois voltou-se para contemplar o norte e, finalmente, o oeste.
Percebeu que podia avistar, alm de suas terras, as dos MacFallin.
Alm do lago e de uma pequena floresta de rvores, podia avistar o telhado da
casa do conde.
Jamais fora um castelo, porm sempre a casa do chefe dos MacFallin.
-  extraordinrio - reflectiu o duque - como os dois cls tm se detestado e
abominado ao longo dos sculos.
E continuavam a viver lado a lado, insultando-se reciprocamente de todas as
maneiras possveis.
Entretanto, contra a tradio, ele havia na realidade ajudado uma MacFallin
nesta manh a furtar um de seus prprios salmes.
Como um litgio deste tipo podia durar tanto tempo?
Lembrou-se que houvera uma briga feia, durante a Batalha de Culloden, quando o
prncipe Charles inadvertidamente colocara membros dos dois cls lado a lado.
O chefe dos MacBaren havia acusado o chefe dos MacFallin de usurpar seu lugar
no campo de batalha.
Com efeito, os dois cls haviam comeado a brigar entre si em vez de aguardar
pelo inimigo, naturalmente, ingls.
Haviam sido apoiados pelos chefes de outro cl e o prprio prncipe Charles se
desculpara pelo erro que havia cometido.
Entretanto, a raiva e a fria que havia provocado entre os cls, continuara
muito tempo depois de o prncipe dos Stuart retornar do exlio na Frana.
A Esccia enfrentava, mais uma vez, seu maior inimigo, os ingleses.
"Como podem ter sido to tolos?", perguntou-se o duque. J havia admirado
belas inglesas. Eram apaixonadas ao fazer amor.
Em verdade, divertira-se mais em Londres do que em qualquer outra capital que
visitara.
Na Inglaterra, frequentava as pessoas que cercavam o prncipe de Gales.
Visitara muitas das grandes manses inglesas e as considerara confortveis e
civilizadas como gostaria que fosse seu prprio castelo.
Seu pai tivera a idia de que ele deveria frequentar uma escola inglesa, em
Eton, e a Universidade de Oxford.
Assim, era natural que falasse o ingls com perfeio, sem o menor sotaque
escocs.
Embora relutante, admitia que possua idias inglesas sobre o que deveria e
no deveria ser feito.
E eram diferentes das partilhadas por seus ancestrais. Imaginava, embora no
soubesse ao certo, que o conde de MacFallin era bem escocs.
No apenas de sangue, mas de comportamento e ideias. 
"Progredi", reflectiu, "devido por que a maioria de meus amigos so ingleses.
No entanto, sinto orgulho de ser escocs e jamais faria algo contrrio s
crenas de meu povo.
Porm, perguntou-se, "se amasse mesmo seu prprio povo, como acreditava, as
casas do domnio deveriam ser consertadas e as escolas modernizadas. No podia
ignorar que grande nmero de pessoas em sua vasta propriedade vivia em
penria."
Voltou o olhar para o mar.
Cedo ou tarde precisaria casar-se.

Captulo III

Os convidados para a festa da noite eram vizinhos conhecidos h muito tempo do
duque.
Quando Roy anunciou que o jantar estava servido, dirigiram-se  sala de
refeies.
O duque havia imaginado sentar-se com os vizinhos mais importantes.
Para sua surpresa, viu-se com uma senhora de sessenta anos a seu lado direito
e Mary-Lee  esquerda.
A me ou a condessa haviam mudado o arranjo de convivas  mesa.
Quando examinara a distribuio dos convidados Mary-Lee encontrava-se com os
mais jovens.
O facto de sentar-se a seu lado daria origem a boatos entre os vizinhos.
Sentia-se excessivamente aborrecido por ter sido obrigado a uma posio que
despertaria dvidas em seus convivas.
"Danem-se!", disse a si prprio. "No serei pressionado ou intimidado a fazer
algo contra minha vontade."
Assim, conversou animadamente com a senhora  sua direita, que sentiu-se muito
lisonjeada com tal ateno.
Aps o jantar, os convidados mais velhos, incluindo o duque, jogaram bridge.
Os mais jovens foram  sala de msica e danaram enquanto algum tocava piano.
O duque desconhecia quem procedera aos arranjos para o baile. Havia uma mulher
no vilarejo, que sempre era convidada a todas as festas, pblicas ou no
castelo.
Era excelente pianista e excedia-se ao tocar msicas escocesas de dana.
Com certeza, ensinariam Mary-Lee a danar as msicas locais.
O nobre evitou o olhar reprovador da condessa. A prima sentia-se aborrecida ao
extremo pelo facto de ele haver ignorado a americana durante o jantar.
Tampouco fizera o menor esforo para se reunir aos jovens na sala de msica.
Ele se despediu dos convidados na porta da frente.
Depois, subiu e deu um beijo de boa-noite na me. Antes que a condessa pudesse
falar qualquer coisa ele entrou em seu quarto.
Embora estivesse muito cansado no conseguia dormir. Tudo o que a condessa lhe
dissera o preocupava. Embora tivesse avaliado a situao com extrema preciso,
ainda assim ele sentia ser impossvel atend-la.
"Se h algo que abomino de modo absoluto", reflectiu, " ser manipulado e 
exatamente o que a prima Moira est fazendo."

Acordou muito cedo.
Saiu de casa sem ser percebido, s cinco horas da manh.
Levando seu material de pesca, dirigiu-se ao rio. Levou algum tempo at
alcanar o lugar onde encontrara Sheinna.
Era seu hbito comear a pescar prximo ao castelo e  foz do rio.
Ali, se tivesse sorte, encontraria os salmes mais frescos, recm-chegados do
mar.
Entretanto, havia prometido a Sheinna encontr-la mais acima da corrente.
Tambm seria interessante pescar prximo  parte do rio pertencente aos
MacFallin.
Assim, impediria que "seus" peixes corressem em guas inimigas.
Comeou a pescar quase s seis horas.
Se Sheinna aparecesse uma hora mais tarde, ainda haveria tempo para ajud-la a
pescar, antes que aparecesse algum.
Enfureceu-se ao encontrar marcas de redes ao longo do rio.
Com certeza, eram de ladres. Pelas marcas de ps no cho, ao menos quatro
homens teriam lanado a rede ali e arrebanhado o peixe que vinha do mar.
"Onde teriam estado os guardas do rio?", ele se perguntava irritado.
Porm, conhecia a resposta.
Estavam envelhecendo e sentiriam dificuldade em afastar os invasores.
Um dos guardas havia sado com o nariz quebrado numa escaramua com os
ladres.
Outro havia sido chutado na perna com tanta violncia que s pde retornar ao
trabalho uma semana mais tarde.
Tentando esquecer que precisava de mais seguranas, atirou a linha.
Estava pescando a apenas cinco minutos quando sentiu um leve puxo.
Comeou a lutar com o peixe que tentava com todas as foras se libertar.
Nada mais poderia ser to emocionante.
O peixe saltava sem cessar at ser vencido pela mestria do pescador.
Tinha menos de trs quilos mas o duque ficou contente.
Uma vez o peixe morto, ele cobriu com folhas para preserv-lo das moscas e
recomeou a pescar.
Estava trazendo O terceiro peixe quando algum bateu palmas.
Sheinna estava na margem do rio.
-  o primeiro que apanhou? - ela indagou. 
- No,  o terceiro - replicou o duque.
- Est pescando tudo antes de eu chegar - queixou-se a moa.
Ele estava a ponto de protestar quando ela disse:
- Preciso confessar que cheguei cedo na esperana de conseguir pescar antes de
voc.
O duque riu.
- Bem, venha e pesque e espero que ningum nos veja.
Levou algum tempo mas ela conseguiu pescar dois peixes enquanto ele s pescou
mais um.
Para ele, era difcil pescar e ajudar a jovem.
Ao se sentarem na margem, o duque comentou:
- Acho que no desejamos ser vistos, devemos ir para casa pois so quase sete
horas.
- Gostaria de pescar mais meia dzia - ela disse. 
- Est ficando gananciosa.  sempre o mesmo com os pescadores: nunca acham que
pescaram o suficiente.
- Nunca fiz nada mais excitante - ela proferiu - e hoje preciso de muito
conforto.
- Porqu? - inquiriu o duque.
Aps um momento de silncio ela respondeu.
-  o que meu pai me anunciou ontem  noite.
- De que se trata?
- Eu mesma quase no conseguia acreditar - relatou Sheinna. - Fiquei acordada
a maior parte da noite, pensando que devia ser um pesadelo.
- Que aconteceu? - indagou o duque.
- Papai me disse que devo desposar Sir Ewen Kincard, cuja propriedade, como
sabe, limita com a nossa.
O duque reflectiu por um momento.
Depois pronunciou:
- Sir Ewen Kincard,  um homem idoso.
- Sei disso - relatou Sheinna. - Porm papai acha que sua propriedade se
unindo  nossa seria de grande ajuda e o cl ficaria muito feliz em se tornar
maior e mais forte.
- Se no me engano - disse o duque -, Sir Ewen est se aproximando dos setenta
anos.
-  isso mesmo - Sheinna confirmou. - Porm, papai deseja suas terras e Sir
Ewen pretende um herdeiro.
O duque a fitava.
- Naturalmente, no pode desposar um homem desta idade. Quantos anos tem voc?
- Vinte, quase vinte e um - ela respondeu.
- Ento ele tem idade para ser seu av - ponderou o duque. - Nunca ouvi idia
to ridcula.
- Mas, como expliquei - ela informou -, papai est pensando em benefcio do
cl, em como seria ptimo ampliar o domnio. E Sir Ewen, de sua parte, no
pensa em mim, apenas em ter um filho seu.
- No importa o que Sir Ewen pretende ou no, deve deixar bem claro para seu
pai que no pretende desposar algum a quem no ama.
-  exatamente o que tentei lhe dizer - Sheinna relatou. - Quero apaixonar-me
por um homem pela simples razo de ach-lo maravilhoso e que ele me ame.
O duque pensava exatamente desta maneira. Poderiam ter sido suas palavras.
Aps um momento ele aconselhou:
- Deve-se mostrar muito firme em relao a isso.
- Tentarei - ela comunicou. - Papai diz que deverei desposar quem quer que
seja que ele escolha
para mim. Naturalmente, nos velhos tempos, os casamentos eram arranjados entre
os cls.
- Eram arranjados para a vantagem do cl e no para a felicidade daqueles que
eram envolvidos em tais unies - constatou o duque. -  inacreditvel voc ser
pressionada para casar com um homem idoso. Se no estou enganado, a histria
da vida de Sir Ewen  bastante desagradvel.
- Ele j teve duas esposas - lembrou Sheinna. - Ambas morreram e talvez tenha
sido por sua crueldade em relao a elas.
- como seu pai pode ter a idia de obrig-la a casar com um homem desses? -
inquiriu o duque.
- Deseja que eu seja importante e dona das terras de Sir Ewen. Estou com medo,
em verdade apavorada de no conseguir resistir  presso.
Parecia uma repetio do que ocorrera com o duque, quando a prima, na noite
anterior, o pressionava a casar-se por dinheiro.
- Deve fugir - pronunciou o nobre em voz alta.
Sheinna esboou um gesto de desamparo com as mos.
- Para onde? - indagou. - Sentia-me to feliz quando vivia com minha av mas,
agora, estou em casa, onde tudo  diferente e tenho receio pois papai e Sir
Ewen so muito poderosos. Tenho at dificuldade de pensar por mim prpria.
Sua voz era de profundo desamparo.
Como chefe de cl, o conde era um personagem poderoso. Era quase um rei para
as pessoas que portavam seu nome.
Corria o boato de que se tratava tambm de um homem perigoso.
E, sem dvida, estava resolvido a exercer sua autoridade e poder.
Com isso, seu povo admiraria sua fora e se deixaria conduzir de bom grado por
ele.
O pai do duque havia chegado a comentar:
- Se estivssemos vivendo h cem anos, com certeza MacFallin armaria um
exrcito com seus homens e precisaramos lutar por nossas vidas do alvorecer
ao anoitecer.
Na ocasio, o duque havia dado uma risada. Porm, reflectia agora que o pai
tinha razo.
Esta moa jovem e bonita no teria meios de fazer face ao pai.
- Que posso fazer? - indagou Sheinna com voz trmula.
- Deve fugir - repetiu o duque em voz decidida.
Ela voltou a esboar um gesto de desamparo com as mos.
- Para onde?
O duque reflectiu por um momento.
Depois, decidiu-se:
- Tenho uma idia que talvez considere insana. No sei se o que vou sugerir 
uma resposta para seu problema ou se  uma bomba.
- No compreendo. O que est tentando dizer? - implorou Sheinna.
O duque reflectiu por um momento. Depois explicou:
- Acontece que eu me encontro numa situao muito parecida com a sua. Estou
sendo pressionado por meus parentes para casar-me com uma jovem apenas por ser
rica.
- Mas com certeza no  obrigado, se no  esse seu desejo - alegou Sheinna.
O duque sorriu.
- Estou sendo pressionado, do mesmo modo que voc est, apenas porque
precisamos de dinheiro, para o castelo, para o domnio e, naturalmente, para
os membros do cl.
- Achei que sendo to importante, teria tudo o que desejasse - ponderou
Sheinna. - Embora tenha apenas passado por seu castelo, considero-o o mais
belo que j vi.
- Falta muito dinheiro para reformas urgentes nele - contou o duque - e, para
dizer a verdade, estou muito endividado.
- Ento desejam que despose uma mulher rica? - Sheinna questionou.
- Querem que eu case com uma jovem a quem acabarei achando muito tediosa.
- Sendo um homem, um duque, pode certamente recusar.
- No  to fcil quanto parece. Apelam para que eu salve meu lar, meu povo e
aqueles que me ajudam a conservar as ovelhas e o gado, que esto sendo
pilhados por falta de recursos para resistir aos ladres.
- Ento acredita que deve sacrificar-se pelo cl.
-  o que pretendem que eu faa do mesmo modo como desejam que voc aumente a
fora do cl, casando com um homem idoso o suficiente para ser seu av.
- No posso fazer isso - lamentou-se a moa.
- No posso! Por favor, ajude-me, diga-me como posso me esconder deles. Mas
receio que consigam me encontrar.
- No pode fugir sozinha - ponderou o duque. - No tem parentes ou amigos no
sul, que a receberiam de bom grado se pedisse sua ajuda?
- Suponho que me abrigariam - Sheinna falou hesitante. - Mas papai logo
descobriria e insistiria para que eu retornasse para casa.
Era muito plausvel a possibilidade.
Sendo to jovem e bela seria fcil descobrir seu paradeiro.
Ficaram em silncio.
Ento o duque disse:
- Estou pensando numa Soluo para ns dois. Porm,  difcil coloc-la em
palavras.
- Oh, diga-me. Estou desesperada. Para ser honesta, prefiro morrer a casar com
um homem idoso como Sir Ewen.
- Estou pensando em algo que faria tanto seu pai como meus parentes ficarem
furiosos.
- De que est falando? -. inquiriu Sheinna.
O duque sorriu.
- Parece bobagem - ele explicou - mas realmente tenho uma idia. Ns dois
temos problemas. Enfrentamos a mesma presso para casarmos com quem no
desejamos.
-  verdade. Mas como podemos recusar? Voc pode fugir, mas eu, como mulher,
seria logo trazida de volta em desgraa.
- Bem, precisamos dar-lhes outras coisas em que pensar alm dos casamentos que
nos arranjaram - prosseguiu o duque. - Portanto, minha sugesto, Sheinna, que
voc pode achar muito estranha,  fingirmos que nos apaixonamos e desejamos
nos casar.
Ela o fitou atnita.
Seus olhos eram muito grandes no rosto delicado.
- No compreendo...
-  muito simples - explicou o duque. - Direi que quero casar com voc e que
est na hora de terminar esta ridcula disputa entre nossos dois cls.
- Meu pai teria um ataque do corao ante a idia de uma MacFallin desposar um
MacBaren.
-  claro que teria - anuiu o duque - e meu cl teria a mesma reaco. Assim,
dando-lhes algo mais em que pensar e discutir, ganharemos tempo para organizar
nossas prprias vidas como desejamos. Voc poderia encontrar um amor e eu
tambm.
Aps uma pausa, ele confidenciou.
-  o que tenho tentado h algum tempo mas ainda no consegui.
Novamente reinou o silncio.
Ento Sheinna declarou:
- Duas possibilidades podem acontecer. Meu pai obriga-me a desposar Sir Ewen
imediatamente, a fim de me salvar de voc, ou ele pode forar os cls a
lutarem entre si. No suportaria ver ningum de meu povo morto ou ferido.
- Sinto o mesmo - concordou o duque. - Mas, se tivermos sorte, eles pediro
logo um acordo. Nesta ocasio, Sir Ewen estar fora da disputa, que no lhe
diz respeito, ou encontrar outra pessoa para desposar.
Para sua surpresa, Sheinna deu uma risada.
- No pode ser verdade, parece novela de livro. Sabe muito bem que meu pai e
seus amigos se enfurecero contra os MacBaren como sempre. Alis, seu povo
ter a mesma reaco.
-  claro que sim - concordou o duque. - Enquanto isso, esquecero dos
casamentos que nos arranjaram e continuaremos solteiros e sem sofrer presso.
Aps uma pausa, ele prosseguiu, devagar:
- Teremos tempo para encontrar pessoas mais interessantes do que as que
encontramos at hoje.
Sheinna bateu as mos.
- Parece possvel - ela disse. - Porm, talvez voc esteja sendo optimista. 
realmente absurdo pensar que podamos desafiar os sculos nos quais os dois
cls se odiaram.
- Eles falaro sem cessar mas duvido que tentaro qualquer aco violenta.
Tentaro deixar bem claro que no somos feitos um para o outro e, por mais que
imploremos, no nos daro consentimento para casar.
- Acha que, enquanto isso, voc puder encontrar a mulher que realmente ama e
eu encontrarei algum que me ame?
-  uma possibilidade - externou o duque.
Ela deu uma risada.
- A idia  maravilhosa, mas acha que ousaremos agir deste modo?
- Estou preparado de minha parte, se voc aceitar - props o duque. - Esta
tarde enviarei uma carruagem para convid-la a tomar ch com minha me e minha
prima. Quando voc perceber o efeito explosivo desse convite sobre elas, ter
idia do choque que seu pai ter quando lhe contar a razo de minha visita a
ele aps tantos anos.
- Ele no acreditar que voc  real - ela exclamou.
Mas ela logo acrescentou:
- Por favor, est falando mesmo a srio? Parece to extraordinrio, porm,
como sugere, pode distrair meu pai da idia de eu desposar Sir Ewen.
-  este o plano - murmurou o duque.
- E, sem dvida, sua famlia - Sheinna continuou - ficar to ocupada tentando
livrar-se de mim que esquecero de pression-lo para casar com quem quer que
seja.
- Imploraram-me para casar e direi a eles que estou obedecendo - comunicou o
duque. - Poderia ponderar que est na hora de encerrar o litgio entre nossos
dois cls. Entre ns, seramos uma fora extraordinria contra qualquer outro
cl e, tambm, contra os ladres de nossos salmes e de nosso gado.
- Oh,  impossvel! sei que  impossvel - Sheinna exasperou-se. - Mas ser
excitante e s saberemos o fim da histria quando fecharmos a ltima pgina.
- Temos um longo caminho a percorrer antes disso - ponderou o duque. - No que
me diz respeito s sei que deter, ao menos temporariamente, a eterna
insistncia de meus parentes para me casar e, de sua parte a salvar de uma
unio pior do que a morte.
- Mas acha que poderemos mesmo tentar isso?
- J lhe disse o que acho. Vou mandar uma carruagem busc-la s trs e meia. 
melhor que no diga onde est indo at que eu a traga de volta.
- Ser fcil - ela explicou - pois papai vai sair esta tarde para acertar
detalhes com Sir Ewen. Ele deve levar trs quartos de hora para chegar l e se
conversarem durante uma hora, demorar ainda mais.
- Assim, teremos tempo para respirar - comentou o duque em tom firme. - como
j lhe disse, a carruagem ir busc-la s trs e meia, quando seu pai j
estar bem longe.
- E estaremos temporariamente livres para encontrar outras pessoas.
Ela olhou para o duque ao contar:
- Cheguei a ir a alguns bailes em Londres mas fiz poucos amigos de minha idade
pois viajvamos com frequncia ou eu estava na escola.
- Bem, agora ter oportunidade de encontrar todos os jovens deste lado do
condado - concluiu o duque.
- Havia vrios em minha casa jantando ontem  noite, inteligentes e
encantadores. Acho que gostaria de conhec-los.
- Parece maravilhoso - exultou Sheinna. - Apenas sinto receio que papai tente
mat-lo ou que os MacFallin invadam o castelo e tentem destru-lo.
- J tentaram isso no passado e fracassaram - replicou o duque. - E acho que
os revlveres que apontamos contra eles ainda esto nas torres. Quando vier ao
castelo, poder dar uma olhada e constatar se ainda funcionam.
- Suponho que estou acordada e no estou sonhando.
- Parece bem desperta para mim - brincou o duque - e no esquea que conseguiu
pescar dois salmes.
- Devo lev-los para casa e encantar papai enquanto ele ainda est tomando o
caf da manh. Por favor ajude-me a lev-los at  estrada. Avisei um
cavalario para vir a meu encontro e est na hora.
- Foi uma boa idia - apreciou o duque. -  melhor irmos para suas terras para
que no seja vista chegando na estrada do meu lado.
- Pensa em tudo - ela observou - e muito obrigado por pensar em mim.
Ela deu-lhe o brao e depois continuou:
- No tenho certeza de que funcionar e temo que papai se limite a rir e me
obrigue a subir ao altar com Sir Ewen antes que eu tenha tempo de dizer no.
- Ele no pode fazer isso sem uma licena especial - ponderou o duque. - Tenho
certeza de que desejar celebrar seu casamento com a participao de todos os
membros do cl.
-  verdade - declarou Sheinna. - Ele est j mesmo planeando o que vai servir
aos convidados em meu casamento.
- E que certamente no ser com Sir Ewen - completou o duque. - Tente no
sentir medo. A menos que eu esteja muito enganado eles comearo a falar sem
parar e ainda estaro fazendo o mesmo quando estivermos demasiado velhos para
pensarmos em nos casar e at sermos carregados para a sepultura.
Sheinna riu.
- E, como lhe prometi - o duque dizia apanhando os peixes -, conhecer muitos
jovens simpticos que vivem nesta parte do pas e, tambm, meus amigos de
Londres que pretendo receber como hspedes.
-  to generoso, no sei como agradecer-lhe!
- Em verdade, estou pensando em ns dois - respondeu o duque. - No tm parado
de me aborrecer desde que voltei para casa. Francamente, estou nauseado com a
insistncia para me casar. Se me sobrasse um vestgio de orgulho, partiria
para a Amrica e faria fortuna como outros homens o fizeram.
Caminharam, saindo das terras pertencentes ao duque e entrando nas do conde.
- No vou prosseguir, para no ser visto. Porm, se os peixes so muito
pesados, deixe-os debaixo de um arbusto ou de uma rvore e mande um dos
criados busc-los.
- Arriscaria que fossem roubados - comentou Sheinna. - Prefiro deixar a vara
de pescar que no  to preciosa como os salmes.
O duque riu.
- Deve garantir que o crdito seja todo seu e que seu pai no tenha idia de
que nos conhecemos at retornarmos esta tarde contando-lhe o que pretendemos.
- No ficaria surpresa se a casa desabasse sobre nossas cabeas. Mas obrigado
mais uma vez por me ajudar.
- Pelo menos, eles tero um assunto sobre o qual falar. Se a histria terminar
como nos contos de fada, Sir Ewen desposar Mary-Lee e eles vivero felizes
para sempre.
Sheinna riu da idia.
E sua alegria era to contagiosa que o duque riu tambm.
- No estamos fazendo nada errado - ele disse, quase para se confortar - e
tenho certeza de que algo de muito bom resultar de nosso plano.
- Vou rezar para que isso acontea.
- Ainda h poucos dias, ocorreu-me como essas disputas entre cls so
ridculas. J est na hora de pensarmos primeiro na Esccia e de torn-la mais
prspera e moderna.
- Acho que  uma regio encantadora e sinto-me orgulhosa de ser parte dela -
comentou a jovem.
- Sinto o mesmo - asseverou o nobre - porm, tambm percebo os erros e falhas
e como estamos atrasados. Ambos podemos comear a perceber que h muitas
idias novas e problemas que os escoceses devem enfrentar.
Sheinna apoiou o canio numa grande rvore.
- Quem quer que venha  procura da vara de pescar o encontrar com facilidade
aqui - ela comentou. - Mais uma vez muito obrigado por tanta bondade. Se ao
chegar em casa tiver mudado de idia, basta mandar-me um bilhete.
Aps uma pausa, ela acrescentou:
- Mas rezarei para que tal no acontea. pois tenho pavor de ser obrigada a
casar com Sir Ewen.
- Precisamos nos livrar dele - declarou o duque.
- At logo, Sheinna. e ficarei muito triste se a carruagem voltar sem voc.
- No acontecer - ela prometeu - mais uma vez obrigado.
Ela sorriu-lhe, afastando-se com um salmo em cada mo.
O duque a fitou at perd-la de vista.
Depois retornou ao rio para apanhar seus apetrechos de pesca e os trs salmes
que apanhara.
Somente ao caminhar para casa ocorreu-lhe se no agira como um louco.
Havia sugerido um modo de fuga extraordinrio tanto para Sheinna como para si
prprio.
Funcionaria?
Ao mesmo tempo, sentia-se horrorizado ante a idia de uma mocinha desposar Sir
Ewen.
Lembrava-se de ouvir o pai afirmar que esse nobre constitua uma desgraa para
sua famlia e para a Esccia.
A maneira como perseguia jovens mulheres e os escndalos que provocava eram
chocantes.
Entretanto, o duque no tinha inteno de contar a Sheinna o quanto Sir Ewen
era perigoso.
O pai da moa devia ter perdido o juzo para aceitar a idia de permitir que a
nica filha desposasse um devasso. 
"No conheo o conde, no sei as idias que tem em mente. Mas quando pedir a
mo de Sheinna terei oportunidade de descobrir."
Enquanto caminhava, reflectia como era irritante e enfadonho ouvir sem cessar
a me e a prima dizendo que ele devia se casar.
Estava sendo forado a uma posio com Mary-Lee difcil de escapar.
Se por acaso o pai da moa chegasse inesperadamente  Esccia, sem dvida a
me lhe diria como seu filho apreciava a jovem.
"Qualquer que seja o resultado deste desafio aos MacBaren e aos MacFallin",
pensou com um sorriso, "terei tempo para me livrar de um eventual jugo vindo
da Amrica".
Ao caminhar assobiava o refro do chamamento dos MacBaren s armas.
Quando divisou o castelo  distncia ele avaliou o quanto lhe era
significativo.
Talvez qualquer sacrifcio devesse ser feito para conservar a construo to
bela e impressionante como fora nos ltimos sculos.
"Meus ancestrais morreram pela Esccia e por nosso cl", ele reflectiu. "S me
pedem para casar por aqueles que carregam meu nome e que me seguiro."
Por um momento envergonhou-se de no fazer o sacrifcio que lhe era pedido.
Precisava aceitar a soluo bvia de desposar Mary-Lee. Ela no ficaria apenas
encantada em aceit-lo e a seu ttulo mas seu pai ficaria feliz.
E recursos ilimitados lhe seriam ento disponveis. Poderia efectuar todas as
reformas necessrias e colocar tudo em ordem no domnio.
Sua mente o aconselhava a proceder deste modo mas no seu corao.
Lembrou-se ento de que estava tentando salvar no apenas a si prprio mas
tambm a Sheinna. Era completa e absolutamente impensvel que ela fosse
forada a desposar Sir Ewen. No entanto, podia compreender.
As terras de Sir Ewen se limitavam com as do conde. Com o matrimnio planejado
os MacFallin dariam um grande passo em importncia.
Ao norte da Esccia ficariam quase em termos iguais com seu velho inimigo, os
MacBaren.
"Devo impedir que isso acontea a qualquer custo", decidiu o duque, "pelo meu
cl."
Enquanto entrava, Roy, o mordomo, aproximou-se correndo.
- Sua Graa fez uma boa pescaria hoje! - cumprimentou, apanhando os salmes.
- Tive sorte - disse o duque com modstia.
- Tudo fica melhor com Sua Graa em casa - Roy pronunciou e desapareceu com o
salmo em direco  cozinha.
O duque disse a si prprio que estava de facto agindo como um gentleman ao
recusar casar-se com uma americana apenas por ser rica.
Era a maneira correcta de liderar seu povo e de faz-lo feliz. Rememorando sua
infncia, lembrava de como os pais haviam sido felizes juntos.
O castelo parecia sempre cheio de risadas e luz.
"Um dia isso voltar a acontecer", decidiu. "Amor  algo que no pode ser
comprado."
Ao contemplar o sol brilhando no mar atravs da janela ele sentia vontade de
ter um amor.
Ainda que levasse anos acabaria por encontr-lo.

Captulo 4

Quando Sheinna deixou o duque ao lado do rio, comeou a subir a estrada.
Avistou, como ordenara, um cavalario vindo em um veculo puxado por um pnei
para lev-la.
Era um rapaz que costumava acordar antes dos cavalarios mais velhos.
Ele sorriu ao ver que ela trazia dois salmes.
- Teve muita sorte, milady - ele falou. - Milorde ficar muito satisfeito. - E
os apanhou sem um arpo, a menos que o tenha deixado em algum lugar.
Sheinna prendeu a respirao.
Havia esquecido que precisaria de uma rede ou de um arpo para pescar.
Naturalmente o duque a ajudara.
Receando o que o jovem cavalario pudesse pensar, ela apressou-se a dizer:
- Oh, deixei minha rede em algum lugar. Mas  tarde voltarei a pescar e a
apanharei.
O servial sorriu.
- Esperemos que precise dela, milady.
Percorreram o trajecto em silncio.
Seria excitante ir  tarde ao Castelo Barenlock.
O cavalario conduziu o veculo para a porta da frente.
- Quer que eu leve os salmes para a cozinha, milady?
- Sim, naturalmente, e muito obrigado por ir me buscar.
Ela entrou na casa.
O mordomo a aguardava no hall e perguntou:
- Milady teve sorte?
- Sim, tive, Donald. Dois salmes e espero que o comamos  noite.
- Avisarei o cozinheiro que esse  seu desejo milady
- anunciou o mordomo. Falava com um sotaque estrangeiro.
Em seu kilt no lembrava em nada o gentil mordomo de voz suave que trabalhava
na casa da av.
L, os lacaios usavam uma libr elegante.
Voltara para casa h pouco tempo.
Mas considerava as pesadas refeies preparadas pelo cozinheiro escocs muito
inspidas.
Comparadas s que comera na Frana eram quase uma gororoba.
Naturalmente, havia salmo e carne de veado. Tambm serviam outros tipos de
peixes. Mas se lembrava com saudades dos deliciosos molhos que saboreara em
Paris.
Por mais que os escoceses louvassem a carne de veado, para o gosto de Sheinna
nada se comparava ao cordeiro ou a um galeto.
"Sou escocesa e no devo criticar meu prprio povo", se recriminara.
Mas no podia fingir que no sentia falta da elegncia e do conforto que
conhecera no sul.
Ao entrar na sala, encontrou o pai sentado tomando o caf da manh.
- Onde esteve? - ele inquiriu. - Disseram-me que saiu muito cedo.
- Fui pescar - Sheinna contou.
- Devia ter me perguntado onde deveria ir - repreendeu o pai. - Conheo cada
recanto do rio melhor do que meu prprio nome e teria garantido que voc
fizesse uma boa pescaria.
- Apanhei dois salmes - a moa declarou.
- Dois! - exclamou o conde. - Bem, foi uma bela faanha
Falava quase com relutncia.
Parecia que lhe desagradava que ela conseguisse algo sem sua ajuda.
Sheinna beijou-lhe o rosto antes de se dirigir ao aparador.
Ali serviu-se da inevitvel tigela de mingau. No gostava do alimento mas
receava confess-lo.
Serviu-se do mnimo possvel na vasilha de madeira que lhe fora dada em seu
baptizado.
O pai comera o mingau da maneira escocesa considerada correcta: em p.
E acrescentara em lugar do acar. Ela sentou-se para comer.
A tradio de os homens comerem em p durava h inmeras geraes.
Devia-se  possibilidade de, enquanto sorveriam o mingau, que achavam
delicioso, um inimigo apunhal-los pelas costas.  claro que o pai, na
segurana de sua sala de jantar ficaria muito mais confortvel se comesse
sentado e no em p.
- Onde pescou o salmo? - ele perguntou.
- No sei o nome do lugar, mas ficava perto de onde nossa parte do rio comea.
O pai emitiu um som de desprezo.
- Fique longe dessa parte das guas! - ele ordenou. - No desejo que os homens
que trabalham para aquele duque ausente digam que voc invadiu seus domnios.
- Se tivesse acontecido eles poderiam ter-me impedido de trazer o peixe -
disse Sheinna.
-  o que teriam feito com certeza - o pai concordou. - E, se quer saber, com
frequncia invadem minha terra, quando acreditam que ningum est por perto.
Sua voz tornou-se mais cortante e ele prosseguiu:
- Em verdade, estou quase certo de ter avistado um deles algumas noites atrs,
mas ele desapareceu antes que eu pudesse me aproximar e dizer-lhe o que
pensava a seu respeito! No me movimento mais to rapidamente quanto outrora.
- Tenho certeza de que h muito peixe para todos sem precisarmos nos tornar
desagradveis.
- Desagradveis! - exclamou o pai zangado. - Garanto-lhe que se eu encontrar
algum pescando em minhas terras, ele ser afortunado se sair vivo.
Falava com a violncia caracterstica de sua personalidade.
Sheinna sempre acreditara que fosse mais bravata do que realidade.
Porm, estavam claros seus sentimentos a respeito dos MacBaren.
- Que vai fazer hoje, papai? - ela indagou.
- Preciso ir ao vilarejo pela manh - replicou o conde. - O proco deseja
conversar comigo sobre consertos para a igreja e tenho outros assuntos a
conversar com ele que levaro bom tempo.
- De que se trata? - perguntou a moa.
Na verdade no estava particularmente curiosa mas considerava polido mostrar
interesse.
- Bem, se quer saber a verdade,  sobre seu casamento - replicou o conde - Vai
ser impossvel usar nossa capela pois haver um grande nmero de convidados.
Sheinna falou, aps um breve silncio.
- J lhe disse, papai, no desejo me casar. Acabo de voltar para casa e  to
bom ficar com voc. como j avisei, no casarei com Sir Ewen.
- Far o que eu mandar! - esbravejou o conde. - E no aceitarei atitudes
tolas.
- Ele  velho e horrvel e se insistir no casamento eu fugirei.
O conde deu uma risada desagradvel.
- E para onde, minha querida menina, para onde iria?
- Para onde no poderia me encontrar - ela respondeu hesitante.
- Ento que fique bem claro que me obedecer como seu pai e chefe deste cl.
Aps uma pausa, o conde acrescentou:
- J lhe disse que no h pressa, mas desejo conversar com Sir Ewen. Tambm,
como devo me avistar com o proco a respeito de outros assuntos, aproveitarei
para falar sobre seu casamento.
Sua voz baixou de tom quando ele continuou:
- E a celebrao ser um dos eventos mais sensacionais de que os MacFallin j
participaram.
Por um momento, Sheinna teve vontade de gritar. De repetir que no casaria com
ningum a quem no amasse, e muito menos com um homem idoso e sem atractivos
como Sir Ewen.
Ento se lembrou de que o duque encontrara uma soluo para eles.
Seria, portanto, perda de tempo discutir mais sobre o assunto.
Afastou a tigela de mingau.
Em silncio, serviu-se de um dos pratos no aparador.
O nico hbito comum com os ingleses na casa consistia em cada um se servir
sozinho durante o caf da manh. As demais refeies eram servidas pelos
criados.
- O que tenho em mente  um grande nmero de damas de honra para voc.
Sua voz revelava satisfao ao prosseguir:
- Os tocadores de gaita de foles tocaro  sua entrada na Igreja e  sada.
Tambm tocaro quase continuamente durante a recepo.
Sheinna permaneceu calada.
O pai estava apenas pensando em voz alta. Ainda que ela fizesse qualquer
comentrio, ele ficaria indiferente.
Apesar de haver dormido pouco durante a noite, ela sentia muita fome.
Ao terminar O prato de peixe, serviu-se de doces, torradas e manteiga.
- Suponho - prosseguia o conde - que necessitar de um vestido de noiva. como
a cerimnia ser muito sumptuosa, dever ser elegante e espectacular.
Sheinna continuava em silncio.
- Voc usar o vu que est na famlia h vrias geraes e levar um ramo de
urzes brancas, significando boa sorte para o casamento.
Para a moa, simbolizava m sorte.
Ningum de sua idade, desposando um homem to idoso e desagradvel, jamais
desfrutaria de boa sorte.
Mas discutir com o pai naquele momento era intil. Reinou mais uma vez o
silncio.
- Suponho que desejar ir a Edimburgo para encomendar o vestido. Embora eu
imagine que algum mais perto poderia nos preparar um bem adequado.
Era muito optimismo acreditar em tal possibilidade. Nenhuma costureira, se
houvesse alguma nos vilarejos, seria capaz de confeccionar o tipo de vestido
que o pai tinha em mente.
Nem mesmo em Edimburgo encontraria algo semelhante ao que poderia ser comprado
em Londres ou Paris. Se insistisse em ir a uma dessas capitais, ser que o pai
concordaria?
Ele provavelmente consideraria sua inteno como um truque para escapar do
casamento.
Como ela continuasse calada, o pai levantou-se da mesa dizendo:
- Depois de me avistar com o proco eu lhe contarei as sugestes dele. Se
pretende pescar, esteja de volta at s cinco horas.
Tendo dado suas ordens, saiu da sala de refeies, fechando a porta
ruidosamente.
Sheinna cobriu o rosto com as mos.
Estava muito assustada. Mais do que nunca em sua vida.
O que aconteceria quando anunciasse sua inteno de desposar o duque?
Provocaria reaces emocionais descontroladas.
Subiu a seu quarto.
E se o duque estivesse apenas brincando com ela?
Talvez no tivesse inteno, na realidade, de dizer que pretendiam casar um
com o outro.
Mas era um gentleman.
No suscitaria falsas esperanas em assunto to srio. "Est na mesma
dificuldade que eu", consolou-se. "Compreende-me.
O pai ficaria duplamente furioso. No apenas ela se recusava a desposar Sir
Ewen como tambm escolhera um inimigo ancestral: o duque de Barenlock.
Seria um espectculo tenebroso assistir  exploso de sua fria.
Ela se lembrava das ocasies em que ele se zangara com ela e a punira por
fazer algo errado. Haveria algum capaz de impedir o pai de puni-la quando ela
o desafiasse?
"Se ao menos vov estivesse viva, eu ainda viveria feliz em Londres", ela
pensava.
De repente, parecia que uma voz a aconselhava a ser corajosa.
Era uma MacFallin e os antepassados haviam vencido inmeras batalhas graas 
sua bravura. Caminhou para a janela a fim de contemplar as montanhas do outro
lado do rio.
Os escoceses no aceitariam a derrota e ela hera uma escocesa.
Por mais corajosa que fingisse ser, as horas demoravam a passar. Um pouco
antes de chegar a carruagem que a levaria ao castelo, vestiu um dos elegantes
trajes que adquirira em Paris.
Na cabea usava um chapeuzinho combinando com o conjunto.
O duque a acharia muito diferente.
S a vira vestindo uma espcie de avental sobre uma saia xadrez. E claro que
no havia usado chapu sobre o cabelo encaracolado, claro, tipicamente escocs
com um toque avermelhado. Caa em cachos naturais sobre a face. O pai achava
que deveriam ser mais ruivos.
Mas os jovens com quem havia danado em Londres o haviam elogiado. Diziam que
seus cabelos eram de uma beleza difcil de ser expressa em palavras.
Sheinna no os levara a srio, divertindo-se, porm, com eles.
J os escoceses, constatara desde seu retorno, pareciam muito canhestros ao
elogiarem.
E tambm sua educao deixava muito a desejar.
H meio sculo tornara-se cmodo para os filhos mais velhos dos chefes serem
educados tanto em Edimburgo como na Inglaterra.
Assim, havia surgido na Esccia uma gerao de jovens inteiramente diferente.
Eram inteligentes, elegantes e muito viajados.
Tambm os proprietrios dos castelos e dos grandes domnios comearam a
convidar seus amigos ingleses
para passar a temporada de caa e pesca em julho, em sua companhia.
No incio do vero vinham para a pesca de salmo. Com todos esses contactos os
escoceses aperfeioaram seu padro de conduta.
Os jovens haviam se tornado mais hospitaleiros e agradveis.
Tambm, em vez de continuarem a desposar apenas jovens escocesas comearam a
casar-se com inglesas.
Os ingleses haviam sido considerados inimigos por muitos anos.
Mas como os escoceses faziam agora parte do Reino Unido, os ingleses eram
aceites pela aristocracia escocesa. Embora ainda fossem encarados com alguma
desconfiana pelos chefes de cl comuns.
Sheinna subiu para esperar a carruagem que o duque havia dito que lhe
enviaria.
Talvez encontrasse, no castelo, jovens ingleses com os quais se sentiria mais
 vontade. "Se conseguisse me apaixonar por um deles", pensou, "e ele por mim,
poderamos fugir para o sul e viver felizes. E eu seria infinitamente mais
feliz do que com uma pessoa como Sir Ewen."
No havia ningum de servio no andar trreo.
Vestida como se fosse a uma festa em Mayfair, Sheinna olhou-se ao espelho.
Pensou em se trocar mas era tarde. Enquanto hesitava, ouviu o som de uma
carruagem. Seria um erro algum perceber para onde ela estava indo.
Neste momento tanto o mordomo como os demais serviais estavam descansando. O
pai s retornaria s cinco horas, quando o ch era servido.
Sheinna atravessou o aposento correndo, cruzou o hall e abriu a porta da
frente.
Uma elegante carruagem fechada, puxada por dois cavalos, a aguardava do lado
de fora.
O lacaio que a aguardava sabia quem ela era. Sem palavras, abriu-lhe a porta.
A moa subiu no veculo.
Partiram logo.
Aparentemente ningum percebera sua sada.
Recostou-se no veculo confortvel. Alis, muito mais confortvel que o de seu
pai. os cavalos tambm eram rpidos.
Seu pai sempre se contentara com animais criados na regio e sem nenhuma
qualidade especial.
Para ele, o importante  que fossem resistentes e fortes o suficiente para
enfrentarem as estradas quando ficavam cobertas pela neve.
A av possua belos cavalos, escolhidos por seus parentes masculinos.
Eram todos puro-sangue e destacavam-se entre os dos proprietrios
aristocrticos.
O pai estava plenamente satisfeito com a Esccia tradicional.
O duque havia vivido em mundos inteiramente diferentes.
Havia sido educado na Inglaterra e viajado pelo exterior.
Tambm ela havia vivido na Inglaterra durante muitos anos.
Percebia, assim, que os escoceses eram de certo modo pouco civilizados.
No estavam em contato com o mundo exterior, que se desenvolvia com rapidez.
Novas geraes, inteiramente diferentes eram criadas.
Produziam novas naves, trens, maquinaria de todos os tipos. Viviam naquilo que
os americanos denominavam uma nova era
Para Sheinna era muito excitante.
Costumava ler os jornais com avidez para descobrir
o que havia sido inventado. Quais pases desafiavam uns aos outros. Cada um se
esforava para progredir.
"A est algo que papai jamais compreender", ela reflectia, enquanto a
carruagem se movimentava um pouco mais rapidamente.
Ao lembrar-se dos cabelos grisalhos e dos passos trpegos de Sir Ewen, ela
estremeceu.
O medo dominou seu corao.
A estrada tornara-se mais ampla e a carruagem se movia mais rpido.
Por algum tempo correram ao longo do mar. A menos de um quilmetro de
distncia viu de vislumbre o castelo.
Parecia quase irreal com o sol brilhando atrs das altas torres e o mar
reluzindo ao fundo.
Atravessaram um pequeno vilarejo e alcanaram os grandes portes.
Apenas por um momento Sheinna sentiu medo. Talvez tivesse errado ao acreditar
no duque.
E se ele pretendesse apenas ridiculariz-la diante de seus familiares?
Porm, a alternativa diante de si era muito mais assustadora. Se recuasse,
teria de aceitar a ordem do pai e casar com Sir Ewen. Tudo, embora assustador
era prefervel a esse destino.
A carruagem diminuiu a velocidade.
Atravessaram os portes, com guaritas de ambos os lados e chegaram a um
patamar.
A porta abriu-se e o duque entrou no veculo.
Estava sorrindo.
Era muito atraente e apertou-lhe a mo.
-  muito pontual - ele comentou. - E  o que eu esperava. E est maravilhosa.
- Receava que me achasse exagerada - explicou Sheinna.
- Esta aventura  muito excitante - ele comentou.
- Receei que desistisse no ltimo momento.
- como poderia quando lhe dei minha palavra? - inquiriu Sheinna.
O duque sorriu.
- Com muita facilidade, no que diz respeito  maioria das mulheres. No  um
privilgio feminino dizer sim quando quer dizer no e no quando quer dizer
sim?
Sheinna deu uma risada.
- Deve ter encontrado mulheres muito estranhas - ela comentou. - No deviam
pertencer ao cl correcto.
-  exatamente minha opinio - concordou o duque. - Agora que somos aliados
quem poder nos derrotar?
A moa estremeceu.
-  muito corajoso, mas sinto medo. Papai ficar furioso. Ele foi visitar o
proco.
- Para acertar os detalhes de seu casamento? Ele est perdendo seu tempo.
- E se no conseguir me salvar? - Sheinna perguntou.
- No tenha medo - pediu o duque em voz suave.
- Prometi que a salvaria e  o que farei alm de salvar a mim prprio. Erga o
queixo e diga a si prpria que somos invencveis e que ningum poder nos
derrotar.
- Espero que tenha razo...
A carruagem se movimentava cada vez mais devagar. Deteve-se diante da porta
principal do castelo.
Um lacaio abriu a porta.
Ela desceu, seguida pelo duque.
Ele deu-lhe o brao e a ajudou a subir as escadas, dizendo:
- Bem-vinda ao Castelo Barenlock. Terei o maior prazer em mostrar-lhe tudo.
- Sempre senti este desejo - ela confidenciou.
Entraram no hall. O mordomo e os lacaios fitavam a jovem com curiosidade.
O duque segurava sua mo.
- Deixe-me ajud-la a subir as escadas - ele explicou. - Minha me deve estar
na sala de estar com minha prima, a condessa de Dunfeld.
- J ouvi falar sobre ela - comentou Sheinna. -  muito elegante e sempre
citada nos jornais.
O duque sorriu.
-  bem o jeito de minha prima Moira. No se intimide com ela.  mais uma que
resolveu que eu devo me casar. E no, naturalmente com algum de minha
escolha, mas de sua vontade.
Falava com amargura e Sheinna o fitou surpresa. Um lacaio de servio
abriu-lhes a porta para a sala de estar.
Ambos prenderam a respirao. Ao entrarem, a me voltou o olhar.
O mesmo fez a condessa, sentada ao lado da tia.
- Mame - disse o duque -, tenho uma grande surpresa:  algum que desejo que
voc conhea em particular.
A duquesa encarava Sheinna com o olhar questionador.
- Naturalmente, querido - ela replicou. - Qualquer amigo seu  sempre
bem-vindo.
- Sabia que essas seriam suas palavras - replicou o duque - pois Sheinna
MacFallin acaba de me dar a grande honra de prometer tornar-se minha esposa. -
Por um momento, o silncio reinou absoluto.
Enquanto a duquesa parecia engasgada, a condessa exclamou:
- MacFallin! No pode ser um membro do cl MacFallin cujo domnio limita com o
nosso.
Com enorme dificuldade, a duquesa conseguiu dizer:
- Esta  uma grande surpresa, querido Alpin.
- Tinha certeza de que seria, mame, porm Sheinna e eu nos conhecemos h
algum tempo. Decidimos anunciar nosso noivado, embora no tenhamos inteno de
nos casarmos logo.
A duquesa, que apertara a mo da jovem, por um momento, emudeceu.
O duque voltou-se para a prima.
- Esta - ele disse a Sheinna -  minha prima, a condessa de Dunfeld.
Sheinna estendeu a mo.
A condessa a apertou.
Ao mesmo tempo proferiu:
- No fazia idia, Alpin, que voc conhecesse algum dos MacFallin. Talvez ela
no seja parente prxima de nosso vizinho, que se comporta to terrivelmente e
de quem jamais gostamos.
- Receio - proferiu Sheinna - afirmar que ele  meu pai.
- Seu pai! - exclamou a condessa. - Ento,  claro,  impossvel que voc e
Alpin se casem.
- Acho, prima Moira, que cabe a mim decidir sobre o assunto - declarou o duque
com firmeza. - Ficaria muito aborrecido se iniciasse uma briga com minha
futura esposa.
Por um momento, a condessa no conseguiu pensar numa rplica.
A duquesa apressou-se a dizer:
- Sugiro que nos sentemos e conte-me. meu filho, por que manteve segredo at
agora. No fazia a menor idia. absolutamente nenhuma, que tivesse qualquer
contato com os MacFallin.
Antes que o duque pudesse responder, ela dirigiu-se a Sheinna.
- Deve perdoar-me, minha cara, se seu aparecimento e a apresentao de meu
filho nos tiraram a respirao. Ainda ontem estvamos conversando com ele
sobre casamento e ele nos declarou com firmeza sua inteno de no desposar
ningum.
- Neste caso, deve sentir-se feliz por eu estar seguindo seu conselho -
declarou o duque. - Sheinna e eu temos certeza de formar um par de noivos
admirvel.
- O que pensa seu pai a este respeito? - indagou a condessa com rispidez.
Era uma questo que a jovem teria dificuldade em responder.
Mas, com tacto, ela declarou:
- Acho que deve perguntar a ele sobre essa questo.
O duque estendeu a mo para a jovem, convidando:
- Venha, vou mostrar-lhe o castelo, antes que lhe faam mais perguntas.
- Gostaria muito de conhecer o castelo - anuiu a moa. - Sempre o admirei do
lado de fora e, para mim, parecia um lugar de conto de fadas.
-  exatamente a impresso que espero que ele provoque - confirmou o duque.
Enquanto falava ele a conduzia.
Quando o par saiu, a duquesa exclamou:
- No acredito! Entretanto, ela  muito bonita e est vestida com muita
elegncia.
- Como poderia ele desposar uma MacFallin? - indagou a condessa, zangada. -
Sabe, to bem quanto eu, que temos estado em guerra com eles h sculos. Seu
pai, o conde,  um homem horroroso. Encontrei-o uma ou duas vezes em festas e
sempre o considerei como algum a quem no desejo conhecer.
- Suponho que Alpin a conhea h muito tempo - mencionou a duquesa em voz
fraca.
- Se  assim, foi muito sensato em guardar a relao para ele prprio -
rebateu a condessa.
- Oh, por favor, no queira mal a Alpin - pediu a me. - Voc o pressionou
para se casar e ele est atendendo seu pedido, precisar aceitar mesmo que a
moa seja uma MacFallin.
-  impossvel, completamente impossvel que ele a despose - asseverou a
condessa. - Imagine o que nosso cl diria. O conde tem agido de modo ofensivo
e rude. Chegou a acusar seu marido de pescar em suas guas e caar em suas
terras e agora est atacando Alpin do mesmo modo. como pode falar com esse
homem e, ainda por cima, aceitar sua filha como esposa de Alpin?
- Se ele realmente a ama e quer casar com ela - pronunciou a duquesa em voz
suave -, ento farei tudo para gostar dela e ajud-lo.
Aps um breve momento, acrescentou:
- Imagino que a vida em sua casa v se tornar muito difcil. No estamos
prontos para aceitar os MacFallin, eles nos odeiam mortalmente e estaro mais
do que prontos a criar transtornos quando descobrirem que Alpin est
arrebatando o membro mais importante de seu cl depois do conde.
- Isso no pode acontecer, simplesmente - declarou a condessa agressiva. -
Como pode Alpin ser to estpido para escolher esta moa? O que ela tem para
oferecer-lhe alm daquela pequena propriedade que realmente deveria nos
pertencer?
- No creio que ela a herdar - declarou a duquesa. - Creio que ela tem dois
irmos, um no exrcito e o outro em Edimburgo.
- Trata-se de um erro terrvel. Acho que ela no receber nenhuma herana do
conde e Alpin no tem condies de sustentar uma esposa com sua situao
atual, e muito menos de restaurar o domnio e o castelo como desejo que ele
faa.
- Acho, querida Moira, que voc pressionou Alpin demasiado - alegou a me. -
Ele sempre disse que desejava casar-se apenas quando se apaixonasse por algum
muito especial. Mas concordo com voc que  uma desgraa ele desejar desposar
uma MacFallin, embora, talvez, isso se transforme numa bno disfarada.
- No consigo imaginar tal possibilidade - contrariou a condessa. - Como bem
sabe, todo o nosso cl abomina os MacFallin, e eles nos abominam. Seria
impossvel um casamento entre nossas famlias ser mais que uma tragdia.
Falava irritada.
Como no conseguisse controlar seus sentimentos levantou-se e atravessou a
sala.
- De algum modo - declarou - embora no saiba como, precisamos impedir que
isso acontea.
A duquesa deu um grito.
- No, querida, seria um erro. Se Alpin a quer como esposa, devemos aceit-la
da melhor maneira possvel. No devemos aborrecer ou ferir meu filho.
- Bem, pode sentir-se assim - rebateu a condessa -, mas penso de outra
maneira. Se acha que vou aceitar aquele conde horripilante em nossa famlia
est muito enganada. Farei que Alpin recobre o bom senso.
- Imploro-lhe que o deixe em paz - pediu a me.
- No consigo evitar, Moira, de acreditar, como j disse, que voc o levou a
esse extremo por tentar impingir-lhe Mary-Lee. Desde o incio eu sentia que
ele no desejava desposar uma americana.
- O que interessa quem seja ela - perguntou a condessa - com todo o dinheiro
que possui?
- Bem, importa para Alpin - explicou a me - e agora que ele escolheu algum
com quem deseja casar, devemos aceitar da melhor forma possvel.
Falava com muita coragem. Mas havia um tom desesperado em sua voz.
Enquanto a condessa se aproximava desgostosa da janela, a duquesa enxugou uma
lgrima.
Acreditava que nada poderiam fazer alm de rezar para que algum milagre
tornasse Alpin feliz.
Ainda que sua noiva fosse uma MacFallin.

Captulo 5

O duque mostrou a Sheinna a vista do alto do castelo.
Apontou em especial os jardins e o local onde pretendia construir um museu.
Havia, no lugar, apenas uma cabana. Continha as cabeas dos lees que ele
caara na ndia, o primeiro veado em que ele atirara quando menino e,
naturalmente, seu primeiro salmo.
Havia tambm outros objectos incomuns que ele colectara em regies no
exterior.
Sheinna sentia grande vontade de examinar cada pea. Porm, ele a apressou a
descer mais uma vez pois desejava lhe mostrar os demais aposentos.
Ela ficou muito impressionada com tudo. O salo de jantar era amplo e, nas
paredes, estavam pendurados retratos da famlia. A biblioteca abrigava todos
os antigos volumes com a histria da Esccia e dos cls. Chegaram a seu
estdio.
Quando ela deparou com os livros deu um gritinho de puro deleite.
- H tanto sobre pases estrangeiros - ela comentou.
-  verdade - o duque replicou. - Tratam de lugares que visitei e de outros
que pretendo conhecer. Tento aprender a seu respeito, se possvel, antes de
viajar.
-  muito sensato de sua parte - comentou Sheinna - assim no arrisca perder
nada de importncia.
- Essa foi sempre minha opinio - ele explicou
- Mas h inmeros livros sobre lugares que jamais terei a oportunidade de ver.
- Acho que devemos nos contentar em viajar em nossa mente - retrucou  moa.
O duque a fitou surpreso.
Nenhuma outra mulher jamais lhe dissera tal frase.
- Acredita mesmo nisso? - ele indagou.
- Voc foi afortunado por ter visitado alguns desses lugares - Sheinna
replicou - mas eu s li a respeito deles e peo-lhe que me conte tudo o que
puder.
- A est algo que farei com o mximo prazer. Tambm lhe mostrarei as
lembranas que trouxe comigo. Algumas so pequenas e insignificantes outras
mais significativas. Quando as contemplo, lembro-me das pessoas e do ambiente
que encontrei num pas em particular.
- Se puder me contar sobre o Nepal, a ndia e especialmente a China - pediu
Sheinna -, ficarei vivendo aqui para sempre e no poder jamais se livrar de
mim.
Enquanto falava, ela olhava para trs, para o caso de alguma pessoa estar
junto  porta.
- Est em segurana - tranquilizou o duque - no podemos ser ouvidos. Mas deve
ter cuidado com o que disser quando estiver com minha famlia.
Um pouco mais tarde, quando ainda estavam conversando no estdio, Roy entrou,
trazendo uma mensagem.
O duque a leu e perguntou em seguida:
- Haver um jantar aqui hoje  noite?
- Oh, sim, Sua Graa - Roy confirmou. - A duquesa o organizou h vrios dias.
Depois chegaram as visitas ontem  noite, de modo inesperado, e tivemos a
dana, assim como ocorrer outra vez hoje  noite.
- No fazia a menor idia - disse o duque.
Esperou que Roy se retirasse e disse para Sheinna:
- Acho que seria um erro visitar seu pai esta tarde. No fazia a menor idia
de que haveria uma festa hoje  noite. Mas seria bom voc encontrar nossos
amigos que vivem nesta parte do condado.
- Sim, naturalmente - concordou a moa.
- Assim, vamos adiar um encontro que, sem dvida alguma, ser muito
desagradvel, com seu pai.
- No vou discutir sobre isso - Sheinna falou baixo. - Mas no posso ficar
para jantar pois no tenho nada para vestir.
O duque pensou um momento. Depois props:
- Sente-se e escreva uma nota para seu pai dizendo que foi convidada para uma
festa com amigos e que passar a noite com eles. No mencione meu nome, assim,
no passar por sua cabea a possibilidade de voc estar comigo.
-  verdade - concordou a jovem.
- E escreva outra para sua criada - continuou o duque. - Diga-lhe para mandar
um de seus melhores vestidos para esta noite e tudo o mais de que precisar
para o caso de permanecer amanh mais tempo do que planevamos.
- Tem certeza de que podemos agir assim? - ela inquiriu, trmula.
- Completa - o duque replicou. - Mandarei Roy levar as mensagens. Ele  muito
discreto e se eu lhe contar que veio escondida ele compreender.
Sheinna sorriu.
- Estamos mergulhando cada vez mais nesta situao - ela se exprimiu. - No
posso imaginar como terminar.
- Mas  claro! - O duque sorriu. - Viveremos felizes para sempre. A nica
pessoa que se ressentir de nossa felicidade ser Sir Ewen.
- No mencione o nome dele - implorou Sheinna.
- D-me calafrios s pensar.
- Ento aproveite esta noite - aconselhou o duque.
- como disse, estamos num palcio de conto de fadas e ambos devemos esquecer
que h diabretes l fora.
Mais uma vez, Sheinna deu uma olhadela para trs antes de falar baixinho:
- Sua prima, a condessa, obviamente me detesta.
- Se  verdade, o problema  dela, no importa para voc - afirmou o duque. -
Ela sempre foi uma mulher intrometida, porm, minha me a aprecia e, quando me
ausento, Moira lhe faz companhia.
- Compreendo que sua me sinta sua falta - comentou Sheinna. - E  natural seu
desejo de que voc se case. Assim, ela teria netos em seu redor.
-  o que pretendo fazer um dia - expressou-se o duque alegremente - Mas
compreenda, h ainda uma grande parte do mundo que desejo explorar antes de me
encerrar aqui e no ter nada mais excitante para fazer do que me ocupar da
disputa entre seu cl e o meu.
Sheinna riu. Mas concordava com o duque que era ridculo os cls continuarem
se degladiando. A nica razo pela qual se odiavam  que o faziam h sculos.
Pensou tambm que a festa da noite seria excitante
Ela se dirigiu  escrivaninha e ele lhe deu uma folha de papel e uma caneta.
Em letra clara e elegante, Sheinna avisou o pai de que passaria a noite fora
para participar numa festa.
Com certeza, ele entenderia como ela apreciaria danar ao som de msicas
escocesas.
O duque a observava por sobro O ombro e comentou:
- Isso dever apazigu-lo. Agora, enquanto coloco a carta num envelope,
escreva para sua criada explicando o que deseja que ela lhe envie.
Sheinna fez uma Lista. O duque levou as duas cartas, entregando-as a Roy.
- Por favor entenda, Roy - ele explicou ao servial no hall - no deve dar a
menor indicao de quem voc  ou de onde vem.
Roy ouviu com muita seriedade.
- Se lhe perguntarem onde  a festa ou onde est milady, seja o mais vago
possvel.
- Pode deixar comigo, Sua Graa - garantiu o mordomo. - Sua Graa sabe que
aprecio um segredo.
Era verdade. Quando ainda menino, quem acompanhava o futuro duque em
escapadelas nocturnas era o ainda jovem Roy.
Algumas vezes iam nadar no mar ou ver se descobriam algum pescando no rio.
Roy o levava aos lugares mais altos quando a neve estava firme. Todos os
demais diziam que era muito perigoso.
Ningum melhor do que Roy entenderia o rebulio que aconteceria quando
anunciasse que ele e Sheinna estavam comprometidos e pretendiam se casar.
Ainda no havia contado ao criado o que estavam planeando. Porm, a essa
altura Roy j suspeitaria do que estava ocorrendo.
Em primeiro lugar, a condessa passara a falar em voz alta sobre o assunto.
Em segundo, h pelo menos cinquenta anos um MacFallin no cruzava o limiar do
castelo.
- Serei o mais rpido possvel, Sua Graa - Roy garantiu ao receber os
envelopes. - E como vai danar as quadrilhas escocesas esta noite, mandarei
passar seu melhor kilt e retirarem do cofre sua melhor bolsa de couro.
A bolsa, usada  frente na cintura tinha sido usada
pelo chefe dos MacBaren por muitas geraes. Era uma bela pea de artesanato
feita de uma pele especial. O duque sorriu.
Ele e Sheinna ao menos aproveitariam uma noite agradvel antes de se
envolverem na batalha que os aguardava.
"No quero que ela se aborrea ou fique deprimida", pensou. "Ela vai ser salva
em definitivo de um casamento com Sir Ewen mas momentos difceis nos esperam.
Retornou ao estdio.
Encontrou Sheinna entretida com um livro sobre a ndia.
- Estive admirando as ilustraes e lendo a respeito da fronteira noroeste -
ela explicou. - como eu gostaria de ir  ndia!
- Talvez seja um bom lugar para irmos se precisarmos fugir.
- Est tentando me fazer acreditar em tal possibilidade - ela replicou. -  o
pas que mais tenho vontade de visitar.
- Tambm eu pensava assim - contou o nobre. - Mas fiquei mais fascinado ainda
pelo Nepal, talvez por que fique perto do Himalaia.
- Conte-me a esse respeito por favor - implorou Sheinna. - Se fosse homem eu
tentaria escalar esse pico. Porm, sendo mulher, devo me contentar em
contemplar seu pico  distncia.
- As montanhas do Himalaia so muito belas - contou o duque. - Encontrarei
outros livros para voc que discorram sobre o assunto.
- Oh, obrigado, muito obrigado - ela agradeceu.
- S espero conseguir ler todos antes de ser arrastada daqui por papai.
- Devemos impedi-lo de fazer isso - declarou o duque. - De outro modo, ele
poderia for-la a desposar Sir Ewen e voc no conseguiria escapar outra vez.
Vendo-a tremer apavorada ele apressou-se a dizer:
- Esquea tudo isso agora. Esta noite vamos nos divertir como se fossemos duas
pessoas muito apaixonadas e que esto celebrando com seus amigos.
- No vai dizer-lhes que estamos comprometidos, vai?
- Acho que deveria contar-lhes - explicou o duque. - Ser mais difcil para
seu pai for-la a subir ao altar como Sir Ewen ou mesmo, lev-la para casa
como prisioneira, Se muitas pessoas souberem de nosso compromisso.
Aps uma pausa, ele acrescentou:
- Ficaro atnitos, mas tero algo sobre o que falar.
- Tem certeza de que estamos agindo correctamente? - inquiriu Sheinna. - Estou
pensando em voc e em como todos ficaro horrorizados ao descobrirem sua
inteno de desposar uma MacFallin.
- No acredito que ficaro horrorizados - rebateu o duque. - Muitas das
pessoas que viro aqui esta noite no tm a menor idia da animosidade que
reina entre nossos cls.
A moa o fitava surpresa, mas ele prosseguiu:
- Alguns esto vindo de Edimburgo, outros de Londres. Havia esquecido que
minha prima organizara essa grande festa. Trata-se do aniversrio de sua
filha.
Lembrou-se de haver pedido  me para comprar um presente para ele dar 
aniversariante.
- Se todos estiverem interessados na festa de aniversrio - Sheinna comentou -
no concentraro sua ateno sobre ns.
Sem dvida era uma esperana, pensou o duque, mas ficou calado. Podia bem
imaginar o que sua prima Moura diria de desagradvel sobre os MacFallin.
Precisava impedir Sheinna de se preocupar demasiado em relao ao que poderia
acontecer em um futuro prximo.
Conversou sobre a ndia at a hora de subirem para se vestir para o jantar.
Antes, levou-a mais uma vez ao alto do castelo para admirar o pr-do-sol. As
luzes nessa parte da Esccia eram famosas pela beleza inigualvel.
O sol desaparecia devagar atrs das colinas enquanto os ltimos raios
iluminavam a vegetao de ambos os lados da bala.
Era mais belo do que qualquer espectculo que o duque j observara em qualquer
parte do mundo, incluindo a ndia.
Quando o sol sumiu e eles olharam para cima, a primeira estrela da noite
estava brilhando no cu.
- Obrigado, muito obrigado - agradeceu a moa. - Jamais esquecerei esse
espectculo.  o homem mais feliz do mundo por poder admirar tal vista do
prprio castelo.
Sua maneira de falar era comovedora. Desceram pelos degraus estreitos da torre
e Sheinna foi para o quarto, muito bem decorado e luxuoso. Parecia que estavam
na Inglaterra. Na Esccia, jamais havia encontrado algo semelhante.
Ela acreditava como certo que os ricos possussem belas casas em Londres.
Talvez mesmo maiores e mais imponentes do que as do campo.
Assim, ao retornar para casa ficara chocada com o desconforto que encontrara.
No castelo tudo revelava bom gosto. Nada faltava. Suas roupas, trazida por
Roy, estavam penduradas no armrio.
Um banho fora preparado  frente da lareira onde o fogo ardia para a
eventualidade de um vento frio vindo do mar.
A cama de dossel tinha cortinas de veludo. Inmeros espelhos estavam
estrategicamente colocados.
- Dispe de bastante tempo - dissera o duque ao acompanh-la a seu quarto. -
os convidados devem chegar s oito horas.
- Para onde devo ir quando estiver pronta? - inquirira a moa com voz
assustada.
- Nos encontraremos no salo que fica no mesmo corredor onde encontramos minha
me. Haver um lacaio do lado de fora e ele lhe abrir a porta. Prometo que
estarei  sua espera, assim no precisar entrar sozinha.
- Oh, muito obrigado! - Sheinna exclamou. - Como no conheo ningum vou me
sentir muito intimidada.
- Conhece a mim - replicou o duque - e cuidarei de voc. No receie.
Ela lhe sorriu.
Ao contrrio das mulheres que ele conhecera ela no era exigente nem se
impunha a ele.
O duque foi para o prprio quarto, onde um criado pessoal o aguardava.
Havia tambm um banho preparado para ele.
Ao se trocar, faltavam vinte minutos para as oito.
Seria uma gentileza para Sheinna se ele a buscasse em seu quarto.
Era compreensvel que ela se sentisse tmida por entrar num aposento onde no
conhecia ningum.
Excepto, naturalmente, a me e a prima Moira que, com toda a probabilidade,
continuaria a agir de modo ofensivo.
Bateu na porta do quarto de Sheinna e uma criada a abriu.
- Milady est pronta? - ele inquiriu. Antes que a criada pudesse responder a
jovem atravessou o quarto em sua direco.
- Estava esperando para garantir que houvesse tempo de voc chegar ao salo
antes de mim.
- Achei que seria melhor vir busc-la - replicou o duque. - Venha, vamos
enfrentar juntos a festa. E deixe-me cumpriment-la, est muito bonita.
Ele no exagerava. Ela usava um vestido comprado em Paris.
Fora desenhado pelo famoso Frederick Worth, sem dvida o maior estilista de
belos trajes. Era de um tom de azul plido, que combinava  perfeio com a
pele translcida e os cabelos claros, com um leve tom avermelhado. O traje
realava suas formas perfeitas.
Ela arrebataria todos os presentes, seja os da regio como os vindos de
Londres.
- Agora entendo por que os escoceses usam o kilt.
- Foi a vez de ela cumprimentar - Nenhum homem poderia ser mais elegante que
voc. os ingleses presentes no podero dormir sobre os prprios louros.
- Obrigado - agradeceu o duque. - Uma vez que ambos estamos encantados com
nossa aparncia, faremos uma entrada triunfal.
Sheinna teria preferido entrar despercebida. Mas no poderia ser rude e
discutir com seu anfitrio.
O tocador de gaita de foles, em p na passagem, fora instrudo para tocar as
primeiras notas do cl dos MacBaren para saudar o chefe.
O duque ordenou ao lacaio para abrir amplamente as portas e ofereceu o brao 
moa.
Vinte e cinco pessoas esperavam no salo.
A maioria eram jovens e somente os mais velhos vestiam kilt.
As moas vestiam esplndidos trajes mas nenhum se comparava ao de Sheinna.
Uma exclamao de deleite ecoou  entrada do duque.
Ele comeou a apertar as mos dos convidados e a apresentar Sheinna como sua
noiva. A maioria se rejubilou com a notcia de que ele estava comprometido
e ia se casar. Para eles, tudo era natural, nada havia de estranho na
situao.
Mas a expresso da condessa era carrancuda.
O duque evitou a prima deliberadamente e ficou perto dos jovens. Conversando e
rindo, contou que Sheinna chegara recentemente de Londres.
Como a maioria vinha de outras partes da Esccia e no fazia a menor idia da
disputa existente entre os MacFallin e os MacBaren. conversaram com Sheinna
como se ela fosse um deles.
Dirigiram-se  mesa do jantar onde o duque havia alterado a disposio dos
lugares, previamente, com Roy.
Havia eliminado o plano original arquitectado pela me e pela prima. Nesta
noite, todos os jovens encontravam-se de seu lado na mesa. os mais velhos do
outro lado. Sheinna sentava-se  sua direita e uma bonita moa  sua esquerda.
O jantar foi delicioso. Todos riam e conversavam como se nada de pouco usual
estivesse acontecendo.
Excepto,  claro, a condessa que parecia dardejar com seus olhos furiosos
contra o duque.
A prima no havia feito o menor esforo para conversar com o nobre ou com
Sheinna.
Quando o jantar terminou e o tocador deu a volta ao redor da mesa, o duque
conduziu o grupo  sala principal no andar trreo.
Todas as paredes estavam cobertas com cabeas de veados.
No havia apenas um pianista mas um pequeno conjunto tocando ao entrarem.
Comearam as msicas escocesas tpicas.
O duque havia imaginado que Sheinna, tendo vivido em Londres ao lado da av
no as saberia danar. Para sua surpresa, ela as danava melhor e com mais
graa que qualquer outra pessoa.
E ele,  claro, era seu par.
Quando puderam falar, ele a cumprimentou:
- No fazia a menor idia de que era to excelente danarina.
- Eu amava as danas tpicas quando era criana. Em Londres, tinha alguns
amigos escoceses. Assim, no perdi a prtica.
- Dana melhor que qualquer outra pessoa que j conheci - comentou o duque.
- Est me lisonjeando - ela agradeceu. - Tambm devo dizer que  excelente
danarino.
- Preciso ser - respondeu o duque. - Um chefe que no soubesse danar as
msicas tpicas seria deposto imediatamente.
Sheinna riu.
- Isso jamais acontecer com voc - ela argumentou - e estou me divertindo
muito por ser sua parceira. E to bom na dana como na pesca.
- Bem,  o tipo de cumprimento que aprecio ouvir
- ele brincou.
Ambos riram. Alis, riram felizes a noite toda.
Ao danarem uma valsa juntos, a moa se revelou o melhor par que o duque
jamais possura.
- como no a encontrei em Londres? - ele indagou enquanto se moviam com
suavidade ao redor do salo.
-  fcil de responder - replicou Sheinna. - Voc estava muito entretido
divertindo-se em Marlborough House e ignorando, sempre que possvel, os bailes
oferecidos s debutantes.
Era verdade. O duque sempre evitava esse tipo de evento simplesmente por serem
destinados  promoo de matrimnios.
- Jamais me ocorreu que um dia danaria assim na Esccia ou numa casa to
magnfica e bela como seu castelo.
O duque a fazia rodopiar em silncio. Reflectia que
formavam um belo par. Para Sheinna a dana podia ter durado mais.
Alguns dos convidados tinham um longo caminho a percorrer de volta para casa.
J era madrugada quando se despediram, com tristeza. Todos haviam trazido um
presente de aniversrio para Chalrote. os presentes estavam arrumados sobre
uma mesa prxima da porta.
Ela estava ao lado de Mary-Lee e agradecia a todos. Tambm implorava aos que
residiam perto para ficarem mais um pouco.
Todos haviam bebido  sade de Chalrote durante o jantar.
De certo modo, a mocinha era bonita, segundo o duque.
Mas, comparada a Sheinna, faltava-lhe o traquejo de uma cidade grande. E
tambm era um tanto robusta.
Sem dvida, apreciara seu baile de aniversrio.
Os rapazes haviam disputado para danar com ela. Porm, o duque s danara com
Sheinna. Todos os convidados imaginavam que os dois um dia se casariam.
Mary-Lee, entretanto o fitava com um olhar quase de splica.
Por delicadeza, ele disse  mocinha:
- Espero que tenha se divertido, Mary-Lee.
- Foi maravilhoso, a no ser pelo facto de no ter danado comigo.
O duque sorriu.
- Achei que compreenderia, pois minha noiva conhece poucas pessoas aqui e eu
no desejava que outro homem tomasse meu lugar. Assim, no pude ser to
agradvel com voc como gostaria e tambm com as outras encantadoras jovens
presentes.
- Por favor, dance comigo agora - Mary-Lee pediu.
- Gostaria de contar, ao voltar para a Amrica, que dancei com um duque. Ontem
 noite voc no veio  sala onde estvamos danando.
O duque fitou ao redor rapidamente.
Ento avistou um de seus amigos, sem parceira, em p, segurando um copo de
champanhe na mo.
- Danaremos a prxima msica, Mary-Lee - ele declarou. - Deixe-me apresentar
Charles Falkner a Sheinna.
Garanto que o esperarei - falou Mary-Lee com seu forte sotaque americano.
O duque levou Sheinna at Charles Falkner.
- Eu negligenciei meus convidados hospedados no castelo - ele explicou. -
Seria gentil, Charles, de olhar por minha noiva alguns minutos?
- Quando ouvi que estava noivo para se casar - Charles Falkner replicou - no
acreditei.
- Bem,  verdade - rebateu o duque - e falarei com voc mais tarde. Agora, por
favor, tome conta de lady Sheinna e no permita que ningum a aborrea.
- Prometo - Charles respondeu. - Mas, infelizmente, no trouxe meu punhal.
Sheinna sorriu.
- Se o tivesse trazido estaria em sua meia.
- O que seria muito desconfortvel - Charles Falkner brincou. - Quer que lhe
traga alguma bebida?
- Eu gostaria de um copo de limonada - pediu Sheinna.
Ele no tentou persuadi-la a beber champanhe. Pegou um copo de um lacaio
postado junto  porta com uma bandeja de bebidas e entregou a limonada  ela.
Sentaram-se quando comeou a msica. Quando o duque levou Mary-Lee para
danar, Charles perguntou:
-  mesmo verdade que est comprometida com Alpin?
Sheinna fez um gesto afirmativo com a cabea.
- Sim - confirmou - mas ele s contou hoje para a me.
- O que diz seu pai a este respeito? - inquiriu Charles. - Sempre ouvi que ele
detesta e abomina os MacBaren. - As pessoas do risada de sua veemncia contra
meu amigo Alpin.
- Talvez, de algum modo, consigamos terminar com essa disputa ridcula entre
nossas famlias - externou a moa. - Afinal de contas, ns dois vivemos e
amamos esta bela parte da Esccia e  tolice continuarmos a lutar sem razo
especial a no ser que o fazamos no passado.
- Concordo completamente - Charles afianou. - Sou escocs, mas vivo na
fronteira e agradeo que em nossa regio desistimos das disputas, inclusive
abandonamos nosso dio antigo contra os ingleses.
- Encontrei ingleses encantadores - Sheinna proferiu.
- Com certeza, pensaram o mesmo de voc - cumprimentou Charles. Aps um breve
silncio, ele prosseguiu:
- Se voc e Alpin puderem reunir nossos cls e faz-los esquecer como tm se
odiado ao longo dos sculos, acho que seria um grande passo em frente para a
Esccia e para todos os que aqui vivem.
- Est dizendo exatamente o que penso - Sheinna confessou. - Por favor, voc
ajudar Alpin nessa tarefa?  muito difcil para ele, uma vez que nossos
prprios parentes detestam meu pai e seu povo.
Enquanto falava, lanou um olhar  condessa.
Charles Falkner sabia a quem a moa estava se referindo.
Abaixando a voz, ele disse:
- A condessa faz parte das pessoas que jamais mudar suas idias. Entretanto
os mais jovens como voc acreditam que a animosidade entre os cls est fora
de moda.
-  verdade - concordou Sheinna.
- Afinal, somos todos escoceses - acrescentou Charles - e o importante  que
somos todos do mesmo sangue.
- Sinto o mesmo. Por favor, continue dizendo isso.
-  o que farei - atendeu o amigo do duque. - E quando caar e pescar com
Alpin espero ter a honra de ser convidado tambm por seu pai.
Sheinna conseguiu sorrir.
No acreditava em tal possibilidade, mas declarou:
- Tenho certeza de que meu pai ficar encantado em receb-lo.
- Esperarei com ansiedade tal oportunidade - Charles disse. - Tenho sido
sempre convidado por Alpin para a primeira caada da temporada e ficaria muito
magoado se no participasse este ano tambm.
- Se fosse esquecido censuraria-me a mim?
- No acredito que seja to pouco generosa. Ficaria desesperado pois essa caa
 um de meus maiores prazeres durante o ano inteiro.
- Ento garantirei que no seja esquecido - prometeu a moa.
Mas ela estaria com o duque quando chegasse o outono?
"Algo era certo: seu pai jamais convidaria um amigo de Alpin para caar em
suas terras."
"Como seremos felizes quando pudermos ultrapassar esse litgio ridculo e
viver em paz e harmonia, ela reflectiu desesperada.
O duque danou com Mary-Lee por cerca de dez minutos e voltou para perto de
Sheinna.
- Charles tomou conta de voc?
- Foi muito gentil - ela afirmou. - Estamos de acordo em considerar que a
animosidade entre os cls  ridcula e deveria ser apagada de nossa memria.
- Isso acontecer gradualmente - considerou o duque. - Talvez ns dois,
Sheinna, consigamos fazer com que as pessoas de nossas famlias percebam que
no somos odiosos como acreditam.
- Espero que tenha razo - ela replicou com fervor. Mas a condessa jamais a
receberia de braos abertos. Nem o duque jamais transporia o limiar da casa de
seu pai.
O duque, lendo-lhe os pensamentos, declarou:
- Cabe a ns dois fazermos com que eles aceitem a bandeira da paz.
- Naturalmente - Charles assentiu -  o que todos desejamos, paz e
prosperidade. Estou preparado para lutar por esse ideal.
- Luta no - interveio com firmeza o duque. - Precisamos apelar ao corao de
nossos povos para que compreendam que, independentemente de seu nome ou sangue
so eles prprios que podem tornar a Esccia um lugar feliz.
- Ajudarei nesta cruzada - garantiu o amigo. - quer que eu seja porta-bandeira
ou tocador de gaita de foles?
- Ambos - replicou o duque - e deve persuadir o maior nmero possvel de
pessoas a pensarem como ns.
- Tentarei - prometeu Charles. - Qual outro exemplo poderia ser melhor do que
voc e essa bela jovem se casarem.
- Est tornando nosso casamento mais importante do que pensava - redarguiu o
duque.
- Acho que ser de grande importncia para todos - rebateu o amigo. - J est
na hora desta parte da Esccia se actualizar e parar com as brigas. Acho que
nossos inimigos so outros.
Algumas pessoas se aproximaram para se despedir.
Todos desejavam felicidades pelo futuro matrimnio.
Quando o ltimo convidado partiu, Sheinna disse ao duque:
- Foi uma festa maravilhosa e me diverti muito.
- Fico contente - asseverou o duque. - Foi um grande sucesso. Todos a
elogiaram.
Falavam caminhando em direco  porta. Ao se voltarem para subir as escadas,
ouviram a voz da condessa dizendo  duquesa me:
- Foi uma noite maravilhosa e Chalrote jamais teve melhor aniversrio. S
houve uma mancha no horizonte e no preciso dizer qual .
Sem reflectir, Sheinna aproximou-se mais do duque e segurou-lhe a mo.
- No ligue - ele aconselhou, calmo. - Hoje iniciamos nossa cruzada e,
naturalmente, haver alguma oposio. Mas cedo ou tarde, e esta  uma
profecia, todos se juntaro a ns e a Esccia no ser mais uma regio
dividida.
- Rezarei por esse dia - Sheinna falou com fervor.

Captulo 6

Na manh seguinte, quando Sheinna desceu para o caf, encontrou apenas o duque
na sala.
- Os outros convidados ainda dormem - ele explicou - e no imaginei que
acordaria to cedo.
- Diverti-me tanto que nem me cansei - ela replicou.
O duque sorriu.
- Danou muito melhor que qualquer outra pessoa e melhor do que eu imaginara.
- Costumava danar muito em Londres e gosto muito de danar.
- Eu tambm, s vezes - contou o duque. - Mas, naturalmente, depende de meu
par.
Sheinna riu.
- O que faremos hoje?
Temia que ele comunicasse sua inteno de lev-la de volta  casa do pai.
Mas ele props:
- Acho que um passeio em meu iate, ao longo da costa ser algo de novo para
voc.
Sheinna deu um gritinho de prazer.
- Ser maravilhoso - ela exultou. -  o que mais apreciaria.
- ptimo - ele alegrou-se. - como  uma embarcao que adquiri h pouco,
provavelmente s falarei sobre ela.
- Nunca andei de iate, porm, j li a esse respeito, especialmente sobre os
construdos na Amrica.
- Bem, ento est combinado - declarou o duque.
- Mas precisaremos esperar um pouco, pois tenho cartas por escrever e contas a
pagar.
- Enquanto isso vou ao jardim - avisou Sheinna.
- O sol est brilhando e vou admirar as flores que comeam a crescer.
- Se elogiar os jardineiros eles ficaro muito felizes - lembrou o duque. -
Tiveram muito trabalho plantando novos canteiros durante minha ausncia e
estou encantado com a maneira como tm crescido.
- No fazia a menor idia de que se interessasse por jardins - comentou a
jovem.
- Bem, interesso-me e h muito a conhecermos um sobre o outro - alertou o
duque. - Caso contrrio percebero que acabamos de nos encontrar, que no nos
conhecemos h muitos anos como queremos dar a impresso.
- Gostaria de t-lo conhecido h muitos anos. - Ela riu. - Teria sido
divertido encontr-lo em Londres.
Antes que o duque pudesse replicar, ela prosseguiu:
- Mas, com certeza, teria evitado de me procurar pois era apenas uma debutante
e, segundo minha av, os homens mais importantes fogem das debutantes a quem
consideram tediosas.
O duque riu.
-  verdade. Mas jamais a acharia tediosa. Alis jamais me entediou desde que
nos encontramos.
- Bem, no faz tanto tempo assim - ela sussurrou.
- Algumas pessoas que j encontrei repetidas vezes acho que nunca as conheo.
Outras, como voc, desde o primeiro dia do-me a impresso de que sempre as
conheci e que sei o que tm em mente e o que pretendem dizer.
Sheinna bateu palmas.
- Que bom pensar desse modo. tambm eu muitas vezes me senti assim e acho que,
em alguns casos, nos encontramos em outras vidas.
- Est me dizendo que acredita em renascimento?
-  claro - assentiu a jovem.
O duque prestava ateno e ela continuou:
- como poderiam crebros brilhantes, como o de lorde Melbourne e o do duque de
Wellington apenas morrerem e serem esquecido excepto pelos livros?
Naturalmente, ou vivem numa outra dimenso ou so avanados o suficiente para
voltarem.
O duque a fitou atnito.
Sentou-se novamente  mesa do caf.
- Estou fascinado pelo que est dizendo - declarou.
-  o que aprendi no Oriente, e nunca pensei a esse respeito. Jamais encontrei
outra pessoa, alm de mim interessada neste assunto.
- Sinto o mesmo - contou a moa. -  muito excitante saber que pensamos do
mesmo modo. Poder ajudar-me a entender aquilo que no entendo.
Podemos com certeza tentar - disse o duque. -  tarde, no iate, no seremos
perturbados por outras pessoas e poderemos conversar  vontade.
- No vejo a hora. Vai ser ptimo! - ela exclamou.
- Tambm para mim - asseverou o duque.
Ele se levantou e caminhou para a porta.
- Quando tiver terminado minhas cartas irei ao seu encontro.
- Estarei no jardim - a jovem informou. Ele sorriu e saiu do aposento.
Terminando o caf, Sheinna alegrava-se. Nunca lhe acontecera nada to
excitante.
Onde menos esperava, encontrara algum que havia explorado lugares estranhos e
longnquos. E que tambm estava interessado nas vidas e religies dos povos
que ali viviam.
Ao sair da sala, no subiu para pr o chapu.
O sol no estava muito quente. Tendo vivido muito tempo em cidades, apreciava
sentir a liberdade e o frescor do ar escocs.
O jardim era muito bonito com cores e borboletas voando ao redor.
Nenhum jardim poderia se comparar aos escoceses.
O duque dirigiu-se a seu estdio, onde uma pilha de cartas por responder o
aguardava.
Era uma pilha de contas com cheques para serem assinados.
Examinou primeiro as cartas. Muitas eram de mulheres com quem passara muito
tempo em Londres.
Como sentisse pressa de voltar ao lado de Sheinna, ele ignorou tais cartas e
abriu apenas as outras.
Algumas eram de anfitris cujas festas havia frequentado.
Diversas eram de seus amigos do White's Club. Todos manifestavam a esperana
de serem convidados ao castelo para a prxima temporada de caa ou pesca.
Ele respondeu a trs e estava para comear a assinar os cheques quando Roy
entrou, apressado.
- O conde de MacFallin est aqui, Sua Graa - anunciou.
O duque prendeu a respirao.
- O conde! - exclamou.
- Sim, Sua Graa, e trouxe vrios dignitrios com ele. E tambm h outros
membros do cl l fora.
O duque ficou silencioso. No havia previsto a eventualidade embora no fosse
surpreendente.
- Para onde levou Sua Excelncia? - indagou.
- como havia muitas pessoas, Sua Graa, levei-os
ao salo principal e os lacaios esto providenciando cadeiras para todos.
O duque levantou-se.
- H outros membros do cl l fora, Roy? Espero que no estejam provocando
algazarra.
- Tambm espero, Sua Graa - Roy assentiu. - Mandei alguns lacaios advertirem
nossos rapazes para ficarem em guarda.
O duque sorriu. Era bem do mordomo pensar em tudo. Porm, no desejava ter as
janelas quebradas ou uma escaramua em sua propriedade.
Seria um erro perturbar Sheinna dizendo-lhe que o pai estava ali.
Encaminhou-se devagar  sala principal, onde haviam passado horas agradveis
na noite anterior. E hoje seria um local de semibatalha.
Entrou sem ser anunciado.
O conde estava em p, com um ar extremamente agressivo.
Ao menos vinte pessoas que o acompanhavam estavam sentadas e igual nmero
permanecia em p.
Enquanto o duque se aproximava do conde, este pareceu-lhe mais velho do que na
ocasio anterior em que se haviam encontrado. E sua expresso carrancuda era
excessivamente desagradvel.
Quando ficaram frente a frente, nenhum dos dois esboou o gesto de apertarem
as mos.
Antes que o conde pudesse falar o duque se antecipou:
- Bom dia, Fallin. Quer me ver,  claro.
- Naturalmente desejo v-lo - disse o conde em voz alta. - Circulou o boato,
embora no consiga acreditar verdadeiramente, que voc teve a audcia de
afirmar que pretende desposar minha filha.
- Sua filha prestou-me a enorme honra de prometer que ser minha esposa -
replicou o duque.
Por um momento, reinou o silncio.
Depois surgiu um murmrio entre os dignitrios.
- Ela o far sobre meu cadver - vociferou o conde. - como ousa apresentar-se
a minha filha, como imagino ter feito em Londres e pedi-la em casamento quando
tem agredido e insultado os MacFallin desde que nasceu?
- como sabe - redarguiu o duque -, a hostilidade entre nossos cls tem durado
h pelo menos quatrocentos anos. Acho que est na hora de despertarmos para as
idias e comportamentos modernos e ce agirmos com Sensatez.
- Est dizendo que no sou sensato? - O conde esbravejou.
- Ao contrrio, tenho certeza de que ser bastante sensato para compreender
que neste sculo e em nossa poca histrica, deveramos nos unir - respondeu o
duque. - Se precisarmos lutar, que lutemos pela Esccia e no entre ns
prprios.
Houve um leve rumor de aprovao da sala.
Mas o conde rebateu:
- Esta pode ser sua idia mas com certeza no  a minha.
- No vejo por que no - persistiu o duque.
- Como bem sabe - disse o conde -, os MacFallin lutaram por nosso pas contra
os ingleses e se distinguiram na Batalha de Culloden, o que  mais do que os
MacBaren fizeram.
O duque queria contradiz-lo mas percebeu que seria um erro.
Por isso, declarou:
- Em verdade, milorde, tinha a inteno de visit-lo esta tarde para
inform-lo de meu noivado com sua filha e para conversarmos sobre como podemos
tornar esta parte da Esccia mais prspera.
- E acredita que eu o ouviria? - o conde enfureceu-se. - Eu desprezo e odeio
voc com toda a minha vida sempre detestei os MacBaren. Prefiro ver minha
filha na sepultura de que casada com voc ou com qualquer pessoa de sua
famlia.
Sua violncia despertou um murmrio de protesto dos senhores que o
acompanhavam.
Aqueles que estavam em p no hall entreolharam-se com preocupao.
- Estou sugerindo - explicou o duque -, que nos sentemos confortavelmente e
conversemos sobre o melhor modo de unir nossos cls, pois sua filha e eu
pretendemos nos casar.
O rosto do conde ficou vermelho de fria.
- Se acredita que lhe permitirei casar com minha filha, est muito enganado.
Ela j est prometida em casamento com um amigo meu e farei que esse
matrimnio ocorra o mais rpido possvel.
Ele gritava as palavras com raiva.
Seus companheiros o fitavam, surpreso.
- Se pretende casar Sheinna com Sir Ewen Kincard deve estar louco. Ele tem
idade para ser seu av e sua reputao  das piores. Nenhum bom pai confiaria
sua jovem filha a tal homem. Imploro-lhe que veja com bom senso e, se ela no
pode me desposar, que ao menos no seja sacrificada em prol de seu
engrandecimento.
- como ousa falar-me deste modo? - esbravejou o conde. - Sheinna  minha filha
e far O que eu mandar. Escolhi um marido para ela e eles se casaro assim que
eu tenha tempo de lev-los  igreja.
Parou para respirar. Depois prosseguiu:
- Fique com seu cl e seus prprios amigos, a maioria ingleses pelo que sei, e
deixe ns escoceses vivermos como nos apraz.
- Acho - o duque falou em voz suave - que no est sendo razovel. Seguramente
os desejos de sua filha em relao a um marido So mais importantes que
qualquer outra considerao.
Houve novo murmrio entre os cavalheiros sentados atrs do conde. E o duque
prosseguiu:
- Nenhuma moa de sua idade desejaria se casar com um homem de setenta anos, e
que manchou seu ttulo dezenas de modos abominveis.
- como j disse - berrou O conde -, Sheinna desposar quem eu mandar. Sir Ewen
j est desgostoso, como me relatou pela manh, por ter Ouvido que ela
pretende desposar algum como voc.
Antes que o duque pudesse replicar, ele continuou:
- Gasta seu tempo e dinheiro na Inglaterra em vez de ficar aqui. Permite que
pescadores clandestinos furtem o salmo que deveria chegar  minha parte do
rio. E, pelo que tenho ouvido, este castelo, do qual tem tanto orgulho, est
caindo aos pedaos. Assegurarei que nenhum MacFallin ajude a reform-lo.
Falava com tanta violncia que sua boca estava quase espumando.
O duque se perguntava como poderia acalm-lo.
De repente, a porta se abriu e Roy entrou correndo.
O duque o fitou, atnito. Todos mantiveram silncio.
- Sua Graa - disse Roy -, milady foi sequestrada.
- Alguns homens - Roy balbuciou -. liderados por Sir Ewen Kincard, a levaram
para fora do jardim. Milady tentou lutar mas foi levada  fora para dentro de
uma carruagem que partiu em alta velocidade.
- No posso acreditar! - exclamou o duque.
-  verdade, Sua Graa, e ela chamava pelo vosso nome.
O duque voltou-se para O conde.
- Planeou tal acto?
- No! No! Pretendia levar Sheinna para casa comigo - rebateu o conde.
- Ento por que Sir Ewen a raptou? - inquiriu o duque zangado. - No parece
haver outra palavra para o que ele fez.
- No fao a menor idia - o conde balbuciou. - Acho que decidiu que ela no
se casaria com voc e, assim, a levou embora para garantir que ela o despose.
- Nunca ouvi nada to ultrajante - irritou-se o duque. - Sugiro que ns dois
os sigamos imediatamente para impedir Sir Ewen de assustar Sheinna e
despos-la.  monstruoso o que ele fez, levando-a de meu jardim.
Os demais presentes murmuraram em aprovao. O duque apressou-se a dizer:
- No h tempo a perder. Venha, milorde, vamos segui-los e se nossos cavalos
correrem rpido ns os alcanaremos. Como bem sabe, sua filha deve estar
assustadssima e sinto-me horrorizado com o comportamento criminoso de Sir
Ewen.
Falava andando para a porta.
O conde seguiu-o mudo. Seus acompanhantes fizeram o mesmo. Sem falar, o duque
saiu da sala para o hall, precedido por Roy.
L fora, aguardava a carruagem que trouxera o conde ao castelo. Atrs estavam
os outros veculos que haviam transportado os demais membros do cl do conde.
Ao lado da carruagem do duque estavam os dois homens que haviam visto Sheinna
ser levada  fora.
- Ela estava apanhando algumas flores, Sua Graa - eles relataram - quando
dois homens a agarraram  fora e correram para fora com ela e foram ao lugar
em que Sir Ewen esperava.
- No havia ningum para impedi-los?
- Ns estvamos do outro lado do jardim, Sua Graa, quando ouvimos um grito e
corremos para ajudar, mas era demasiado tarde. Vimos Sir Ewen fugir com ela em
sua carruagem.
- Quantos homens estavam com ele? - perguntou o duque.
- Somente quatro, Sua Graa, e o condutor da carruagem.
- Para onde seguiram?
- Para a esquerda e passaram pelo rochedo da estrada em direco ao vilarejo.
O rio que passava pelo vilarejo corria para o mar. Havia um pequeno porto no
qual usualmente ancoravam pequenos navios.
Provavelmente Sir Ewen tinha a inteno de levar Sheinna embora pelo mar e
ento seria muito difcil encontr-la.
Voltando-se para Roy, ele ordenou:
- Siga-me com minha carruagem e com todos os homens que conseguir reunir.
Subiu na carruagem do conde, que estava na frente dos demais veculos e
ordenou:
- Corra o mais rpido que puder. Precisamos chegar  aldeia antes de Sir Ewen.
Dois cavalos puxavam a carruagem. Mas no eram muito rpidos.
Ao duque restava a esperana que os cavalos de Sir Ewen fossem mais lentos.
Dois dos homens do duque haviam saltado para a parte de trs do veculo. E
outros dois estavam na frente ao lado do condutor.
Os demais membros do cl seguiam atrs.
Viraram  direita ao ultrapassarem os portes.
Uma estrada estreita corria ao lado do rio. Estavam a dois quilmetros do
vilarejo.
O conde resmungava baixinho. Sem dvida estava indignado com a interferncia
de Sir Ewen. Fizeram o percurso em silncio, os cavalos correndo o mximo
possvel.
Ento, um pouco mais adiante alcanaram um trecho em que  direita pastavam
cordeiros entre a estrada e o rio.
De repente, o duque ficou apreensivo. os homens sentados na boleia da
carruagem apontavam as mos para um terreno  esquerda.
Era uma charneca bem conhecida do duque. Quando os vikings haviam invadido a
Esccia, descobriram que esta parte do pas era fcil de invadir.
Os aldees construram ali um esconderijo. Haviam cavado na encosta da colina
um longo tnel que terminava em uma caverna, onde poderiam esconder a si
prprios, s crianas e alguns animais.
Quando terminaram as invases vikings, as crianas costumavam brincar no
local.
Com o passar do tempo o duque fora informado de que o tnel encontrava-se em
condies pssimas. como o solo era arenoso o tecto estava quase desabando.
Era apenas uma questo de tempo para o tnel cair de vez. Qualquer pessoa que
estivesse em seu interior seria enterrada viva.
O nobre ordenara que a entrada fosse coberta de tbuas. E que ningum entrasse
mais no esconderijo dos vikings.
Para surpresa do duque, a carruagem de Sir Ewen encontrava-se  entrada do
tnel.
- Se foi para l que Sir Ewen levou Sheinna, ela poder morrer enterrada viva.
- Vou mat-lo por essa interferncia - ameaou o conde.
- Vamos primeiro salvar Sheinna - decidiu o duque. - Ela  mais importante.
A carruagem se aproximou da de Sir Ewen. Quando os cavalos chegaram a um lugar
plano, quatro homens apareceram  entrada do tnel.
Viram o conde aproximando-se e todos os demais veculos.
Atiraram para o cho as ferramentas que carregavam e fugiram.
O conde desceu clere para um homem de sua idade. Apressou-se pelo cho spero
em direco a Sir Ewen. J estava bem perto. O duque o seguia. Para surpresa
de todos, Sir Ewen, mais desagradvel que nunca, gritou:
- Se no posso t-la, ningum mais a ter.
Quase sem flego o conde replicou:
- Para onde levou minha filha? como ousou interferir? Disse-lhe que trataria
com o duque e que deveria me esperar para traz-la de volta.
O duque estava em p ao lado do conde. Seus homens estavam bem prximos.
Alguns deles estavam se postando atrs de Sir Ewen.
- Saia da minha frente! - esbravejou o conde. - No admito que minha filha
seja carregada  fora por ningum!
Ao terminar de falar, voltou o olhar para o duque. Neste momento, Sir Ewen
atirou nele com uma pequena pistola. A bala arranhou sua cabea. O conde caiu
com um grito de agonia.
Por um momento, o duque ficou paralisado. Ento, um de seus homens atacou Sir
Ewen por trs com um pesado basto. Tambm Sir Ewen caiu, soltando a pistola.
O duque correu para a entrada do tnel. Avistou no cho uma lmpada a leo
ainda ardendo. Olhou ao redor. Atrs de si vrios homens o seguiam.
-  muito perigoso. - E desapareceu no tnel. Quando menino, costumava brincar
ali. Agora havia muita areia no solo. O teto havia desabado parcialmente.
Entretanto, a abertura ainda era ampla para dois homens carregarem Sheinna
para dentro.
O duque se apressou, entrando na caverna.
Ao chegar, ergueu a lmpada para enxergar melhor.
Avistou Sheinna no fundo da caverna e correu para ela.
Estava deitada por terra. Uma corda passava por seu colo amarrando seus braos
nas costas. Havia uma mordaa em sua boca.
O duque ajoelhou-se a seu lado. Seus olhos eram de splica.
- Est tudo bem, minha querida - ele a tranquilizou.
- Est a salvo e ningum nunca mais a ferir. - Arrancou a mordaa.
- Voc veio... rezei tanto para que me salvasse - ela falou com um fio de voz.
O duque percebeu que seu rosto exprimia medo. Parecia impossvel ter
acontecido um facto to escabroso.
Sem pensar, seus lbios se aproximaram dos dela. Era o beijo mais maravilhoso
que jamais dera. Ele a amava como jamais amara ningum antes. Ao erguer a
cabea, ela disse em voz fraca:
- Eu te amo.
- Eu tambm te amo - ele declarou. - Acho que a amei desde o primeiro momento
em que a vi. Quando a levaram foi como se roubassem o que de mais precioso
tenho na vida.
Os olhos da moa se iluminaram.
- Vou solt-la. como puderam fazer isso com voc? - Foi fcil soltar a corda
pois os malfeitores no haviam esperado que algum a encontraria.
Como Sir Ewen pretendia bloquear a entrada novamente, ningum jamais a teria
encontrado ali.
Ao libert-la, ele a beijou novamente.
Depois perguntou:
- Acha que pode andar?
- Tentarei - afirmou Sheinna. - Quando chutei e lutei contra os homens que me
carregavam, feri um deles que, por sua vez, me feriu a perna com um basto.
- Isso nunca mais voltar a acontecer - o duque prometeu.
- Rezei tanto para que voc viesse me salvar.  um milagre. Deus o enviou.
-  um milagre - replicou o duque - e pelo qual agradecerei eternamente.
Ele a ajudou a ficar em p com gentileza.
Ento, no conseguindo evitar, abraou-a e beijou-a outra vez.
- Voc  minha - ele disse - e estou pronto a lutar por voc, embora, receie,
minha querida, que v ser uma batalha muito rdua.
Lembrou-se ento que o conde cara aps ser ferido por Sir Ewen. Talvez o
ferimento no fosse srio.
Entretanto, no contou nada a Sheinna para no preocup-la.
Ela estava apoiada nele, pois embora no o dissesse suas pernas doam.
- Se levar a lmpada, querida, eu a carregarei.
- No pode fazer isso - ela protestou.
- Est me insultando? - ele indagou sorridente. - Pesa muito pouco e j
carreguei pesos muito maiores.
Deu-lhe a lanterna e levantou-a nos braos.
- Agora sinto-me segura.
- No fale cedo demais - ele respondeu. - Precisamos sair deste lugar. No
esquea de que estava fechado pois h muito tempo foi declarado inseguro. Foi
meu bisav quem mandou lacrar a entrada, avisando que nunca deveria ser
reaberto.
- Foi uma boa idia deles colocar-me aqui dentro
- Sheinna falou sem flego. - Sir Ewen no parava de falar que se ele no
poderia me possuir ento ningum o faria. Acho que ele enlouqueceu.
- Ele no est apenas louco. Tambm cometeu tentativa de assassinato - afirmou
o duque. - Deve ir para a priso.
Sheinna no respondeu. O duque a transportava atravs da caverna.
Entraram no tnel que os levaria  entrada do esconderijo.
Ento, enquanto o duque se movia o mais devagar possvel, Sheinna disse de
repente:
- Olhe, h algo brilhando ali. Ser que no vale a pena levar connosco?
O duque a apoiou no cho.
Pegou a lanterna e a levantou.
Avistou, como Sheinna dissera, algo se sobressaindo da parede do tnel e
brilhando  luz da lanterna.
No lugar em que olhavam o solo arenoso afundara. Um pouco adiante, avistaram
algo brilhando. Talvez se tratasse de uma pea de estanho. Ou de alguma
ferramenta abandonada.
Imaginando levar uma lembrana para Sheinna dessa aventura to inesperada
comeou a escavar para retirar a pea.
Ao escavar, descobriu, surpreso, uma taa de ouro. Parecia muito velha e
estava embaada. Pedras preciosas ornamentavam o bordo da taa e tambm a
base.
Sheinna deu um gritinho.
-  uma antiga taa de beber - ela disse. - Oh, Alpin, encontramos um tesouro!
O duque sorriu-lhe.
- Tesouro?
Examinou um pouco mais o lugar de onde extrara a taa e logo encontrou outra.
E tambm um prato de ouro, tambm ornamentado de pedras preciosas.
Ps tudo de volta no lugar onde estavam.
- Por que est fazendo isso? - ela indagou. - Eles lhe pertencem pois esto em
suas terras.
- So meus - ele declarou. - Porm acho, embora possa estar enganado, que
voc, minha amada, descobriu para mim o famoso tesouro que sempre acreditamos
ter sido levado de nossa famlia pelos vikings.
Os olhos de Sheinna se arregalaram.
- Acredita mesmo que esteja aqui?
- Acho que sempre esteve aqui - ele explicou. - Talvez os vikings no
conseguissem transport-lo em suas naves e tenham decidido retornar noutra
ocasio para lev-lo. Resolveram enterr-lo na areia, no trecho desabitado
mais prximo da charneca em que haviam descido  terra.
- Oh, Alpin, que idia maravilhosa! Naturalmente eu ouvi falar sobre o tesouro
roubado de sua famlia e em como vocs haviam ficado deprimidos. Porm todos
presumiram que os vikings o haviam levado embora.
-  o que todos pensamos - confirmou o duque.
- Mas voc me trouxe a sorte que jamais esperei encontrar. Entretanto, o
tesouro deve ser removido com muito cuidado, pois h perigo de que este lugar
desabe, enterrando tudo. Aps tantos anos no quero apenas encontr-lo para
voltar a perd-lo.
- Jamais ouvi nada to excitante e ser muito difcil no contar para sua me
que certamente se emocionar.
O duque pensava da mesma maneira. E parte da ansiedade em relao  manuteno
do castelo e do domnio seria tirada de seus ombros.
- Venha, querida - ele pediu. - Devemos voltar e enfrentar seu pai. Creio que
a esta altura ele deve estar sofrendo as consequncias do ataque de Sir Ewen
contra ele.
- Ele ousou atirar em papai? - Sheinna indignou-se. -  um homem horrvel,
perverso e eu estava certa ao negar-me a despos-lo.
"No permitirei que se case com ningum mais alm de mim prprio", o duque
pretendia dizer. Mas, neste momento avistaram a luz prenunciando a sada do
tnel.
Os serviais do duque espiavam para dentro. Roy alcanou-os primeiro.
- Encontrou milady, Sua Graa! - alegrou-se.
- Sim - replicou o duque - e desejo que a leve para casa o mais rpido
possvel.
- Tem toda razo Sua Graa, pois outros problemas existem.
Estavam na sada do tnel.
- O que aconteceu? - indagou o duque.
- Acho que Sir Ewen morreu, Sua Graa - informou Roy.
- Morreu! - exclamou o duque. - Eu o vi cair, mas no acredito que um simples
golpe o tenha matado.
- Estava inconsciente quando o levaram ao mdico - contou o mordomo.
- E meu pai? - inquiriu Sheinna ansiosa.
- Acho que a bala o feriu de leve - o duque apressou-se a dizer.
- Apenas arranhou-lhe a cabea - Roy disse - e depois no ficou inconsciente
mas falava sem sentido.
- Tambm foi levado ao mdico?
- Sim, Sua Graa, foram levados juntos na mesma carruagem e s restam os
membros do cl dos MacFallin e os nossos.
- Falarei com eles - decidiu o duque. - Mas primeiro levarei milady para nossa
carruagem.
- Ela est a um passo daqui, Sua Graa.
- Voc pensa em tudo, Roy - o duque afirmou.
Levantou Sheinna nos braos.
- Agora, minha querida - ele disse -, vou mand-la de volta ao castelo e ir
directo para a cama e descansar.
- Quero ficar a seu lado - sussurrou Sheinna.
- Tambm quero o mesmo - replicou o duque. - Mas esta  uma excelente
oportunidade para conversar com os MacFallin.
- Sim, tem razo, e esperarei por voc.
Ela o fitou nos olhos desejando ser beijada.
- Eu te amo - ele sussurrou.
Ento, ele a levou para a carruagem e a acomodou com delicadeza.
- Leve-a para casa, Roy - ordenou.
Outros homens do duque haviam chegado em vrios veculos. Ele se dirigiu em
direco aos MacFallin que o aguardavam.
Desejavam verificar se ele havia salvado lady Sheinna ou se ela havia ficado
perdida no esconderijo dos vikings.
Os homens de ambos os cls conversavam amigavelmente.
Nada como uma tragdia para aproximar os homens. Ele se aproximou e disse:
- Fiquem onde esto. Desejo falar-lhes e esta  uma oportunidade que no posso
perder.

Captulo 7

Sheinna sonhava com o duque. Ele a beijava.
De repente, acordou. Olhou para cima e o avistou.
-  to linda adormecida, minha querida - ele disse.
- Onde esteve? O que aconteceu? - ela indagou assustada.
- Tenho muito a lhe contar - ele explicou. - No deveria estar em seu quarto
mas no consegui esperar.
- Conte-me, por favor - ela implorou, acomodando-se melhor nos travesseiros.
O duque a fitou com tanto amor que ela sentiu o corao em sobressalto.
- Devemos ser sensatos - ela pediu. - Por favor conte-me o que fez depois que
fui embora.
- Falei aos membros do cl. Para minha surpresa, ouviram-me com ateno e os
mais velhos do cl de seu pai em verdade concordam comigo.
- Que maravilhoso! - ela exultou.
- Fiquei emocionado - ele confidenciou. - O lder dos ancios, um homem
inteligente, declarou que eu tinha razo. Que a situao fora demasiado longe
e por muito tempo. Era hora de pensarmos na Esccia e no na histria de
nossos cls.
- Foi exatamente o que sempre pensei! - exclamou Sheinna.
- Ento disseram que gostariam muito de ver nossos respectivos cls unidos por
nosso casamento.
- Quer dizer, nosso casamento?
- Tenho inteno de despos-la ainda que precise enfrentar o mundo - o duque
replicou. - Mas, desde que os cls demonstrem boa vontade sobre nossa unio,
tudo fica mais fcil. Poderemos iniciar nossa vida sem esta situao
interminvel e horrvel entre nossos povos.
- Ser maravilhoso - Sheinna declarou. - Quero amar seu povo tanto quanto ao
meu.
- O que deve fazer - disse o duque com suavidade -  me amar.
- Eu te amo - ela replicou. - Amo mais do que posso exprimir. Mas, por favor,
conte-me mais.
-  muito difcil. S quero beij-la. Mas precisa saber, e espero que no se
aborrea demais, que seu pai dificilmente se recuperar do ferimento de
pistola.
- Est assim to mal?
- Est vivo e os mdicos acham que ele viver talvez um ano ou mais. Porm,
seu crebro ficar afectado.
- Oh, pobre papai! - entristeceu-se Sheinna. - Embora ele sempre tenha sido
difcil e, para falar a verdade embora no possa am-lo, no desejo que ele
sofra.
- Acho que no sofrer - replicou o duque. - Teve uma hemorragia cerebral e o
mundo para ele parece indistinto. Faremos que tenha conforto e duas
enfermeiras tomaro conta dele.
- Ento no preciso me preocupar - declarou Sheinna.
- Pensei em voc quando pedi ao mdico para organizar tal esquema.
- E Sir Ewen? - ela perguntou.
- Ele teve um derrame ao ser ferido na cabea - replicou o duque. - Est
inconsciente e os mdicos acham que morrer a qualquer momento.
Aps uma pausa, ele prosseguiu:
- Embora parea pouco generoso, acho que ningum chorar por ele. Est
inconsciente e no sente dor.
Sheinna fechou os olhos por um momento. No haveria mais a menor possibilidade
de ser forada a casar-se com Sir Ewen.
 - Vai me desposar - o duque declarou com firmeza.
- Est lendo meus pensamentos...
- Do mesmo modo como pode ler os meus - ele respondeu.
- Oh, Alpin. No  maravilhoso termos nos encontrado? Ambos queramos nos
casar por amor e  o que faremos.
- Exactamente o que faremos - ele concordou. - Mas esqueceu de me perguntar
algo muito importante.
- De que se trata?
- Sobre o tesouro - ele falou. - Voltei ao tnel. Ainda no consigo acreditar
mas penso que l est todo o tesouro que foi roubado do castelo.
- Mas  possvel?
- Acho que pode ter sido escondido l pelos vikings quando descobriram que a
populao se escondia deles l - explicou o duque. - Ou, e esta hiptese 
mais plausvel, alguns membros mais leais de nosso cl perceberam que os
vikings estavam pilhando o castelo e lhes prepararam uma emboscada quando
retornavam  suas naves. Ento os mataram e enterraram ou os deixaram escapar
sem o tesouro que haviam roubado de nossa famlia.
Sheinna prestava ateno, hipnotizada.
O duque prosseguiu:
- Quando os vikings foram embora, nossos homens esconderam o tesouro,
provavelmente  noite, no tnel. Seria perigoso contar a quem quer que fosse
sobre seu paradeiro. Assim, mantiveram silncio e o segredo morreu com eles.
Sheinna deu um gritinho.
- Poderia escrever um livro com essa histria. Nunca ouvi nada to excitante.
Acha que l est tudo o que foi levado do castelo?
- Tomei o mximo cuidado para no mexer muito no local - explicou o duque -
mas certifiquei-me de que os retratos que considerava perdidos l esto em
segurana.
- Que maravilha! - alegrou-se Sheinna. - Acho que minhas oraes me levaram a
voc e agora poder restaurar o castelo em todo o seu esplendor.
- Detestarei vender qualquer parte do tesouro - confidenciou o duque - mas 
mais importante que o castelo seja restaurado e que as casas de nosso povo
sejam reformadas. como bem disse seu pai, tambm precisamos de mais guardas
para proteger nosso rio.
- Talvez no precise vender todo o tesouro pois poder usar meu dinheiro.
- Seu dinheiro? - surpreendeu-se o duque. - Mas, querida, receio que
precisaremos de milhares de libras.
- Minha av era muito rica - explicou Sheinna.
- Ela deixou-me tudo o que possua, ao morrer, aborrecendo muito papai. Mas s
poderei usar o dinheiro quando completar vinte e seis anos ou quando me casar.
A surpresa do duque era tamanha que no conseguia emitir palavra. Depois
perguntou:
- Est me contando que  uma herdeira?
- No sei se posso competir com Mary-Lee mas acho que vov deixou-me quase
dois milhes de libras. Naturalmente sinto-me feliz que possa gastar o que
quiser para tornar nosso lar to belo quanto deseja e fazer tudo o que desejar
no domnio.
O duque levou a mo  cabea.
- Estou sonhando - falou. - Sei que estou sonhando. No pode ser verdade.
Vamos acordar para descobrir que voc precisa desposar Sir Ewen e eu Mary-Lee.
Sheinna riu.
- Este  um horrvel pesadelo. A verdade  que acaba de vencer outra batalha
embora no tenha percebido.
- Acho que Deus me enviou voc especialmente do cu para me ajudar - declarou
o duque. - Estive  sua procura toda a minha vida. Quando foi raptada fiquei
desesperado. Ao saber que haviam tomado a estrada pela costa fiquei
aterrorizado que a levassem embora por mar e ento eu jamais voltaria a
encontr-la.
- Mas encontrou-me - Sheinna contradisse. - E eu rezei todo o tempo em que
estava com aqueles homens horrveis.
- Senti que chamava por mim. Apavorava-me a idia de perd-la. Mas eu a teria
procurado por todos os oceanos at encontr-la.
Por sorte, avistara a carruagem de Sir Ewen perto do esconderijo dos vikings.
- Jamais duvidarei outra vez da importncia ou valor da prece. Eu a encontrei,
minha querida e nunca mais a perderei, nunca mais!
- Eu preciso lhe dizer que eu o amo de todo o meu corao e que ainda que
vivssemos numa simples casinha de campo seria feliz a seu lado.
O duque a beijou at ficarem sem respirao.
- Preciso conversar com os membros mais antigos de meu cl sobre nosso
matrimnio. Pedi a Roy que os chamasse, pois no devem se sentir excludos dos
preparativos.
-  claro. Vou me levantar e estarei  sua espera quando tiver terminado.
- Prometa-me que no vai desaparecer ou que no ser raptada outra vez...
Estava brincando, mas Sheinna estremeceu.
- Nunca senti tanto medo em minha vida - ela declarou. - Pensei que nunca mais
o veria.
- Mas agora me ver sempre e lamentarei cada minuto em que no estivermos
juntos.
Ele a beijou outra vez e foi para a porta.
Quando saiu, Sheinna olhou o relgio. Estava quase na hora do jantar.
Havia ficado to exausta com a experincia do rapto que adormecera
profundamente sem ver as horas passarem.
Chamou as criadas, tocando a campainha.
Depois vestiu um de seus mais belos trajes.
Aps todo o rebulio, talvez jantasse a ss com o duque. No lhe havia
perguntado sobre a reaco de sua me ao que acontecera.
Mas a criada, que a ajudava a vestir-se, contou-lhe:
- No contamos nada a Sua Graa at a hora do almoo, quando ela perguntou a
razo da ausncia de seu filho.
- Espero que ela no tenha ficado muito apreensiva.
- Ficou muito preocupada at ele retornar. Depois soube pelo Sr. Roy que ele
fora ao vilarejo.
Sheinna no fez outras perguntas e desceu para a sala.
Ali no havia ningum e ela se aproximou da janela para admirar o mar.
O sol estava se pondo atrs das charnecas. A porta abriu-se e o duque entrou.
Ela correu para ele e o abraou.
- Est tudo em ordem?
Ele a beijou. Ainda se abraavam quando falou:
- Melhor do que poderia esperar. Todos querem ajudar a preparar nosso
casamento, que ser o evento mais importante ocorrido no castelo nos ltimos
duzentos anos.
Sheinna riu. E ele a acompanhou.

A cerimnia ocorreu duas semanas depois. Embora no desejasse aborrecer
Sheinna o duque acelerou os preparativos.
Receava que o pai dela morresse. Neste caso, precisariam ficar de luto. O
conde era cuidado por mos capazes. As enfermeiras lhe garantiam todo o
conforto possvel.
Mas ele no percebia o que ocorria no lar ou no cl.
O duque tentou contactar o irmo mais velho de Sheinna, a quem ela no via h
anos.
Ele estivera no exterior, tomando parte na guerra da Crimia e agora estava na
frica. No poderia retornar a tempo para o casamento.
O duque imaginava que Bruce deixaria o exrcito e voltaria para assumir a
chefia de seu cl.
- Tomei providncias para que voc seja levada ao altar pelo mais importante
dignitrio de seu cl e que a conhece desde que nasceu.
- Gosto muito dele - afirmou Sheinna. - Ele foi sempre muito bondoso comigo.
Mas como vivia com vov, no o vejo h anos.
- Ele aguarda com ansiedade a oportunidade de rev-la - garantiu o duque. -
como  muito alto e de ptima aparncia embora j tenha mais de setenta anos,
far bonita figura em nosso casamento.
A cerimnia ocorreria na igreja da propriedade do conde. os membros dos
MacFallin ficaram felizes que o casamento se desenrolasse em solo de sua
propriedade.
Mas o caf da manh do matrimnio seria no castelo. os tocadores de gaita de
foles de ambos os cls escoltariam o casal de um lugar para o outro.
Todos os membros estavam decididos a tornar a ocasio o mais festiva possvel.
Celebrariam no apenas o casamento, como a unio dos cls.
Naturalmente, a nica pessoa em desacordo era a condessa, que no parava de
aborrecer a duquesa com suas crticas e queixas. E, tambm, desencorajando
muitos dos MacBaren.
O duque resolveu conversar com o marido da prima, uma pessoa muito sensata e
que no apreciava discrdias. No dava ouvidos s reclamaes da esposa. Ao
contrrio, tentava faz-la entender que era exagerada e agressiva em relao
aos MacFallin.
Quando o duque apelou ao conde de Dunfeld para lhe dar apoio, este, com muita
sensibilidade, resolveu levar a famlia e Mary-Lee numa viagem s Ilhas
Orkney, onde a pescaria era excelente e as pessoas da terra hospitaleiras.
Gentilmente, tambm, cedeu sua casa para eventuais convidados ao casamento.
Em verdade, o espao era pouco para todos os parentes e amigos que acorreram
para a celebrao. O castelo e a casa de Sheinna foram inteiramente ocupados.
A noiva encomendou o mais belo traje possvel em Edimburgo e a duquesa
insistiu em emprestar-lhe uma tiara que pertencia  famlia h muitas
geraes.
- O adereo, que usei em meu casamento, tem sido conservado no cofre, pois 
muito grande e chamativo e s poderia us-lo se fosse convidada ao Castelo de
Windsor - explicou a futura sogra.
- Tem certeza de que no se importa de eu us-lo? - inquiriu Sheinna. - Sei
que Alpin gostaria que eu o fizesse e o que minha av me deixou no  to
magnfico nem to pesado.
A duquesa riu.
-  mesmo pesado - ela reconheceu - mas no precisar ficar com ele na cabea
por tempo demasiado, a no ser que se demore na festa do casamento, o que
tenho certeza, Alpin no desejar.
Sheinna riu, pois a duquesa estava brincando,  claro. 
Porm, a tiara era mesmo fantstica e Roy a poliu at brilhar como uma estrela
no cu.
Com as outras jias que usaria na cerimnia, Sheinna ficaria reluzente como
uma princesa.

No dia do casamento o sol brilhava e ela saltou cedo da cama. Estava em sua
prpria casa pois havia deixado o castelo na vspera.
- Detesto v-la partir, ainda que por uma noite - admitira o duque. - Receio
que desaparea e ento precisarei passar o resto de minha vida  sua procura.
- No desaparecerei, querido - Sheinna garantiu. - E  correcto que saia de
minha casa para a cerimnia.
- No consigo entender como nossos antepassados passaram tanto tempo
alimentando o litgio entre nossos cls em vez de encerr-lo.
-  o que estamos fazendo, agora - tranquilizou-o Sheinna.
- Sinto-me to feliz com a deciso de seu irmo retornar e, sendo ele to
diferente do pai, reinar a harmonia entre nossas famlias.
-  o que ele me assegurou ao escrever. Entretanto, levar ainda algum tempo
para ele dar baixa no exrcito. Enquanto isso, alguns dos mais antigos
dignitrios se encarregaro do cl.
- Gosto muito deles - contou o duque. - Alegra-me que tenham ficado amigos de
meus conselheiros. Se trabalharmos todos juntos no haver mais problemas. E
ns dois, minha querida, planearemos juntos toda a nossa vida futura.
-  maravilhoso e eu te amo muito - declarou Sheinna.
A casa estava repleta de parentes, muitos dos quais haviam discutido com o
conde e aceitado o convite para o casamento com muito prazer. Tambm inmeros
amigos haviam acorrido de Londres.
O mesmo ocorria no castelo. O duque sentiu-se comovido pelo facto de os amigos
atravessarem o pas para virem  cerimnia. Tambm estava contente com a
ausncia da prima.
- Tudo - comentou com a me - est saindo exactamente como desejo. E sei que
agora reconhece que Sheinna  exatamente a mulher ideal para mim.
- Ela  encantadora - afianou a duquesa. - E ela o ama, o que me torna muito
feliz. Sei que ela o desposaria ainda que voc fosse um homem simples e no
possusse este belo castelo.
-  verdade - afirmou o duque. - Eu sentia horror em casar com algum que no
me apreciasse por mim mesmo. Achava que jamais me casaria.
- Isso teria sido desastroso - comentou a duquesa.

No dia do casamento o sol brilhava.
O duque levantou-se cedo, para supervisionar os preparativos. Veado assado ao
ar livre seria servido, alm de iguarias e bebidas deliciosas.
Uma orquestra especial tocaria msicas romnticas, excepto durante os
discursos feitos pelo duque e por membros de ambas as famlias.
Quando a noiva saiu da carruagem,  porta da igreja, a multido a aplaudiu.
Todos admiraram a extraordinria beleza da noiva. Vrias damas de honra, com
menos de quinze anos, a acompanhavam. Estavam vestidas de branco e eram
parentes das duas famlias. Levavam cada uma um belo ramo de rosas e urzes
brancas. Dois pajens de sete anos de idade carregavam a cauda do vestido.
Todos os presentes sentiam-se comovidos. Em particular a duquesa, pois
sentia-se feliz pelo filho que, afinal, encontrara o verdadeiro amor pelo qual
tanto ansiara.
Ao caminhar vagarosamente rumo ao altar, segurando o brao do dignitrio que a
conhecia desde seu nascimento, ela avistou o duque  sua espera. Ningum
poderia ser mais feliz ou afortunada do que ela.
O servio religioso foi curto, mas emocionante, devido ao nfase do proco. Ao
se ajoelharem para as bnos os noivos sentiam a proteco divina.
A recepo foi ao ar livre, por sugesto de Sheinna que queria desfrutar das
flores do jardim.
As gaitas de foles tocavam quando os noivos, agora duque e duquesa, deixaram o
castelo, escapando dos convidados e indo directamente para o iate ancorado no
porto,  espera deles.
O duque mandara enfeit-lo com flores.
Os noivos subiram sorridentes a bordo onde foram recepcionados pelo capito e
pela tripulao.
Quando o iate se afastou pela baa, a msica era ouvida ao longe, junto com
gritos de alegria e de saudao. Todos desejavam boa sorte aos noivos.
Quando afinal estavam em alto-mar, o duque convidou:
- Vamos descer l para baixo. Quero beij-la, minha amada e dizer-lhe o quanto
a amo.
Sheinna sorriu-lhe.
-  tambm meu desejo.
A cabine tambm estava enfeitada de flores e urzes brancas.
O duque comeou a beij-la apaixonadamente.
- Eu te amo, eu te amo - ele repetia.
Mas precisaram ainda jantar com o capito e os demais oficiais que beberam 
sua sade. O chef preparara uma refeio especial.
O jantar fora excelente. Precisaram, assim, agradecer ao chef e, naturalmente,
abrir os presentes de casamento ofertados pela tripulao. Estava escuro
quando desceram para a cabine.
Haviam se afastado bastante rumo ao sul e parado em uma baa tranquila onde
ficariam ancorados para a noite. Somente o suave rumor das ondas batendo no
casco do navio lembrava que estavam no mar.
Ela estava no leito, seus belos cabelos cados sobre os ombros quando o duque
entrou na cabine.
Ele usava um longo robe escuro.
Por um momento, ele se sentou ao lado da cama e a fitou.
- Esta  a segunda vez, minha querida, que a vejo na cama - ele proferiu. -
Cada vez que a olho parece-me mais bela do que antes.
Aps uma pausa ele prosseguiu:
- Jamais homem algum teve noiva to bela.
- Queria ser bela para voc - Sheinna afirmou. - E voc estava atraente em seu
kilt e com todas as decoraes que possui.
Os olhos do duque cintilaram.
- H muito que preciso contar-lhe a meu respeito. E quero conhecer tudo sobre
voc. Mas primeiro quero contar-lhe como a amo.
Ele tirou o robe, entrou na cama e a atraiu para junto de si.
Sentia a suavidade do corpo dela fundindo-se com o seu e ela estremeceu,
consumida pelo amor.
Seus braos a envolveram e ele a apertou cada vez mais.
- Eu a amo. E ser perfeito quando ensinar-lhe sobre o amor.
- Se sou ignorante sobre ele meu corao bate e jamais experimentei sentimento
to maravilhoso como agora.
Ela tentava exprimir em palavras o inexprimvel.
Ento ele comeou a beij-la e continuou at finalmente torn-la sua. Haviam
lutado uma estranha batalha para pertencerem um ao outro.
Mas haviam vencido.
Sua felicidade afectaria a dos respectivos cls e todos seriam beneficiados.
- As palavras so insuficientes para exprimir o que sinto por voc.
- Amo-o com todo o meu corao, minha mente e meu corpo.
Ambos tocaram as estrelas no cu.
Haviam recebido as bnos de Deus, pois todo o amor vem de Deus,  parte de
Deus e sempre ser alcanado por aqueles que desejam encontr-lo.
Ambos sentiam-se transportados para o paraso.

NOTA DA AUTORA

No fim do sculo quarto, algum tempo depois de os romanos terem deixado a
Gr-Bretanha, as tribos na Esccia se dividiram em quatro ramos.
Em 843, o rei Kenneth MacAlpine, por meio do casamento de seu pai com uma
princesa Pictish, uniu escoceses e pitos, formando o reinado de Alba, que se
tornou conhecido como Scotia.
As cartas de Burt, escritas por um gentleman do norte da Esccia, em 1745,
apresentam a seguinte descrio:
"Os habitantes da regio montanhosa da Esccia consideram como a virtude mais
sublime seu amor pelo chefe e lhe prestam obedincia irrestrita, ainda que em
oposio ao governo.
Alm desse amor h o sentimento pelo ramo particular do qual nasceram e, em
terceiro lugar, pelo cl inteiro, ou seu nome, a quem ajudaro, certo ou
errado, contra qualquer outra tribo com a qual estejam em discrdia. Tambm se
sentem obrigados a manifestar boa vontade em relao aos cls que consideram
seus aliados.
O poder dos chefes no  mantido por interesse, pelo facto de serem senhores
de terras, mas por consanguinidade, ou seja, por descenderem linearmente de
antigos patriarcas familiares, pois mantm a mesma autoridade ainda que percam
suas propriedades.
Por outro lado, o chefe, ainda que contra a lei,  obrigado a proteger seus
seguidores.  seu lder nas disputas entre os cls.
Alguns dos chefes no sentem apenas antipatia pessoal ou inimizade por outros,
mas h, tambm, disputas hereditrias entre cls, que so passadas de gerao
para gerao."
Os Cartland eram um cl de Lanarkshire em 1200 e, mais tarde, tornou-se um
vilarejo e, depois, uma cidade com o mesmo nome.
At hoje, Cartland Crags  um belo lugar, onde Wallace se escondeu dos
ingleses que o perseguiam.
Minha av era descendente directa de Robert The Bruce, rei da Esccia em 1306,
o primeiro rei a ser reconhecido pelos ingleses.
Tenho muito orgulho de ser escocesa.
 
fim